Profissão coveiro. Talento escritor

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Profissão coveiro. Talento escritor.

por Pedro Moreno

Decerto me acham estranho por escolher profissão tão inglória e rodeada por misticismo, mas sempre acreditei que a argumentação lógica e clara é a ferramenta mais poderosa que alguém possa usar em defesa de algo que se acredita, portanto lanço mão deste instrumento útil.

Sou um coveiro.

Em um primeiro momento, quando minha cabeça ainda balançava com tal decisão, fiquei um pouco desconcertado por ter chegado nesta sentença tão macabra, mas uma vez plantada tal semente, aos poucos enraizou-me de tal forma que podia sentir, na calada da noite, seus frutos nascendo. Era para mim a profissão ideal para se seguir.

Creio que deixo os senhores um tanto desconcertados com meu palavreado que parece sem propósito, então sigamos aos fatos que desencadearam tal reação.

Sou escritor. Dito isto pode até soar mais estranho, provável julgamento de que sou do tipo estranho, vestido de negro dos pés à cabeça, porém não passa nem perto da verdade. Sou um romancista e poeta. Tenho nas minhas linhas datilografadas as agruras de amores perdidos que nunca vivi e lugares bucólicos que nunca frequentei.

Sendo assim, tal serviço de zelador dos que já se foram tornou-se a escolha mais sábia de quem pretende um dia não ser mais um apostador, ganhando a vida com revisão, e por fim se tornar um autor. O trabalho é simples, sendo pesado apenas em dia de enterro, no qual se retira a terra à força com o uso da pá, mas isso é coisa que acontece apenas uma vez por mês nessa cidade, além do que se acostuma com tais ofícios que passam até a ajudar em meu desenvolvimento físico.

Como nunca fui de dormir muito, torno-me o melhor vigia que esses campos cercados já tiveram. A minha presença afasta qualquer aventureiro com más intenções nessas bandas, deixando os mortos com seus sossegos eternos e eu com minhas escritas infindáveis.

Quando trabalhava em escritório, muitas vezes me vi tendo tempo para mim apenas no momento que chegava em casa e ainda assim tinha que aprender a lidar com a estafa física e mental. Hoje consigo trabalhar sempre levando em meu bolso um caderno de notas, no qual escrevo todos os pensamentos do dia, para quando sentar na frente da máquina coloca-los para o grande baile das letras.

Aos poucos a história se forma, como uma valsa bem orquestrada, ritmada em sua própria elegância. Meu livro, a obra-prima de minha vida logo estará completo e um bom editor (ora bem feitor, ora ganancioso, de preferência os dois) abrirá os caminhos tortuosos de meu sucesso.

Porém nem toda história é fácil de se escrever.

Comecei meu trabalho empolgado, conseguia escrever de três a cinco páginas, teve um dia, glorioso esse, que fiz oito de um só fôlego, porém no outro dia me encontrava fraco com minhas obrigações, então tratei de me policiar quanto aos castigos que me impunha.

Escrever é um parto. Há sofrimento, lágrimas e sangue no nascer do rebento. Um duro aprendizado constante e lento.

Os capítulos se avolumavam sobre minha mesa e comecei a me indagar qual seria o futuro de Samanta e Lucas, os dois pombinhos apaixonados que vem seu amor sendo abruptamente interrompido por um pai austero.

Encharcado em minha própria história sigo o trabalho junto aos túmulos do cemitério até chegar na cripta da família Azevedo, uma construção de pedra com uma cruz encimada feita de ferro, na lateral pequenos quadros com fotos dos falecidos em uma árvore genealógica faltante, as duas últimas adições estão ali, Lucas Azevedo e Samanta Azevedo, pessoas que sequer conheci, mas cujos nomes e afeições fizeram com que virassem personagens de meu romance.

Lucas tem um semblante sério com um fino bigode a lhe adornar os lábios, seus olhos são penetrantes e, imagino eu, que deve ter sido a primeira coisa que chamou a atenção de Samanta, com seu cabelo arrumado em um belo coque no topo da cabeça com alguns fios pendendo sobre os ombros, emoldurando assim seu belo rosto alvo feito as nuvens de um verão que a natureza não ousa produzir.

Certa feita encontrei nesse mesmo mausoléu uma senhora que limpava a poeira descansada pelo chão e plantava flores vivas nos vasos, perguntei se era parente e me disse que Lucas e Samanta eram seus avós, que morreram juntos afogados em um rio enquanto faziam um passeio romântico em uma navio que naufragara, quando ouvi tal história não tinha dúvidas que eu seria responsável pela imortalidade do casal em forma de meus próprios personagens. Todos os dias então eu dedico algum tempo à minha musa inspiradora, tomando conta do descanso eterno dos dois.

E não foram os únicos.

O pai, Senhor Ademar, é um rico fazendeiro que mais tem apreço por animais do que gente, trata seus escravos à base do chicote que mantém sempre preso à cintura, cujo apelido deu de “Disciplina”. Também é um morador do cemitério, duas quadras para baixo do casal, a sepultura dele, simples e com grama sem aparar é a mais descuidada do lugar, não sou de dar luxo a quem não merece.

E assim continuo minha história, a cada enterro um personagem novo entra no livro. No velório eu fico sabendo as característica de cada um, é uma tia que fala sobre uma dívida, um primo que contava o quão bonachão era o morto e a mulher que afirma que homem igual não há. Aos poucos os novos personagens vão se encaixando na trama, como se tivessem sido criados para tal. É com a morte dos outros que meu livro ganha vida.

Então ela veio. Com seus longos cabelos negros terminados no meio das costas e olhos azuis cintilantes com brilho apenas comparável às estrelas. Seu nome era Dália e a certeza era que a flor não trazia justiça à beleza da moça. Chegou no primeiro dia para visitar o jazigo de seu pai, Sebastião, puxou conversa comigo e senti as pernas estremecerem enquanto falava. Poderia ser essa a voz dos próprios anjos?

Falou sobre a efemeridade da vida, e eu como poeta, acompanhei seu raciocínio digno das maiores mentes de nosso tempo, contei a ela sobre meu livro e a prometi que seu pai figuraria na minha história fazendo parte da trama em lugar de destaque.

Eu senti que crescia uma linda amizade entre nós. Porém a moça estava desejosa por algo mais, sentia em suas palavras que ela queria uma companhia que eu não podia dispor nesse momento tão delicado de minha carreira. A trama de meu romance seguia a passos largos e abandoná-lo agora era o mesmo crime cometido por uma mãe que entrega seu filho para o relento da noite fria, na frente de uma casa, esperando que alguém o adote.

Não sou esse tipo degenerado, tenho um compromisso fiel com meu livro e não o deixarei por frivolidades da alma humana.

Dália ainda retornava e sempre que investia recebia a costumeiras recusas. Até o dia que declarou seu amor, profundo e eterno por mim. Disse que a vida não valia a pena se não fosse ao meu lado, era como se fosse uma amante que tentava me tirar dos braços de minha cônjuge, o livro, para saciar sua própria lascividade.

Porém mal sabia Dália que suas atitudes se transformariam em mais uma personagem. Aos poucos a moça dos cabelo negros doou seus traços e personalidade para formar uma amante que seduziria incessantemente Lucas, tentando lhe arrancar dos braços da doce Samanta. Porém por mais que eu lia, algo não se encaixava, soava estranho e até um pouco torpe, mas a Dália do livro não tinha a mesma consistência, não tinha aquele frescor que mistura a ficção com realidade de tal forma que engana o leitor, que minhas outras personagens tinham.

Quando a noite surgiu, a lua seguia para seu palácio no alto do céu, Dália veio ter comigo mais uma conversa, falava sobre a dor que lhe crescia no peito, mas meus olhos só eram do meu livro, que crescia agora a passos lentos. Algo precisava ser feito, a personagem Dália precisaria parecer real. Enquanto caminhava pela cozinha, ouvia de longe o zumbido produzido pelas reclamações da Dália real, me deparei com uma faca longa pousada sobre a pia que reluziu meu sorriso.

Engana-se o leitor que achou que eu matei Dália, pelo contrário! Eu a imortalizei em meu romance, o que jaz dela é apenas um corpo sem graça ou sentido enterrado profundamente na terra de meu quintal com uma rosa por cima para marcar sua moradia final. Enquanto isso a Dália sedutora fatal segue verossímil nas minhas páginas, bailando cheia de vida.

Notas do autor

Profissão coveiro. Talento escritor começou a ser escrito no dia 15 de setembro de 2014 e acabou dia 18. É a segunda vez que escrevo algo sobre um coveiro, porém desta vez uma abordagem diferente sem ter um terror acentuado que é meu costume. Talvez seja uma influência de Edgar Allan Poe que tem sido meu autor de cabeceira este mês, porém sem a genialidade do mestre.