O Detetive

O Detetive

por Pedro Moreno

O tamborilar dos dedos na mesa de carvalho incomodava Sr. Daniel, ele olhou para o assistente com reprovação e este parou de imediato corando as bochechas. Com 35 anos de serviço você vira referência em investigação e o departamento coloca rapazes novos para você ensinar o ofício, para o departamento você é algum objeto de museu no qual estudantes passam para admirá-lo.

Em um quarto escuro no meio de um conjunto habitacional está o corpo de Maria das Graças, aposentada e avó de três lindos netos. Agora seu corpo jaz em uma poça de sangue já seco.

Com a caneta o investigador afasta o cabelo da senhora e consegue enxergar um ferimento de bala. Calça as luvas enquanto observa o garoto novo tomando depoimento dos vizinhos. É bem provável que o novato algum dia vire investigador. Ele tem jeito para a coisa afinal.

Daniel afasta a cabeça da vítima e confere que a munição não atravessara, logo podia ser recuperada. Visualiza novamente o ferimento, desta vez com o auxílio de uma lanterna.

— É uma 9 milímetros.

— Desculpa? – diz o garoto

— A arma usada é uma 9 milímetros. Vê aqui? O buraco é pequeno e não há presença de resíduo de pólvora indicando que foi à distância.

O novato parecia impressionado com as observações. Não era possível saber tal fato apenas por dedução. Aquilo era fruto de muita experiência.

De súbito o investigador levantou e foi até a porta de entrada, com as mãos encenou.

— O assassino abriu a porta e se deparou com a vítima de costas fazendo o café. Como ela claramente tem deficiência auditiva ela não pode ouvir o invasor que se apoiou nesta mesa e acabou por derrubar a xícara.

O garoto não acreditou. Realmente havia uma xícara no chão. Ele passou o pó de grafite pelas bordas da mesa e realmente havia uma digital, ou ao menos uma parcial.

— Certo – disse o investigador enquanto conferia que sua teoria batia – , o assassino derrubou a xícara fazendo a dona de casa virar e ele BAM! Ela cai no chão.

Então o detetive começa a andar pela cena do crime como se imaginasse uma possível trajetória do assassino. Parou no fogão e examinou os botões.

— O assassino desligou o fogão.

Realmente havia mais uma digital. Daniel retirou as luvas e acenou com a cabeça para o legista retirar o corpo. O trabalho para ele terminou.

Com 22 anos de idade, André não gostava de ser chamado de garoto, apesar de ser verdade. Ele terminou o colégio com notas exemplares e antes do tempo, o que deu-lhe a chance de concorrer a concursos que o fizeram passar na difícil prova de investigador da polícia.

Graças ao seu bom empenho hoje ele é assistente do melhor investigador da polícia da região. O Daniel é praticamente um mito no departamento. Nunca faltou ou fez cara feia para o trabalho. Não gosta de tirar férias e quando o faz com certeza é a contragosto.

Enquanto mexe com a papelada, André recebe um torpedo no celular. O legista avisou que recuperou a bala e já podia ser retirada. Tomou o café com pressa e vestiu o paletó enquanto pegava as chaves do carro.

Ainda não tivera tempo de trabalhar nas digitais tiradas na cena, porém já tinha a munição. No caminho procurou organizar suas tarefas e resolveu deixar a bala para depois, na maioria dos casos de assassinato a arma usada é roubada, então não fazia sentido analisar-la primeiro.

Quando chegou no escritório começou mexer nas provas. As digitais eram parciais ou borradas, mas com um pouco de esforço seria possível fazer o truque. As digitais lhe consumiram quase o dia inteiro e o rapaz que fazia a comparação saiu mais cedo em direção ao hospital, pois sua mulher iria ter um filho.

No dia seguinte, já de manhã, Daniel se servia de um belo copo de café enquanto lia as notícias do dia. André chegou e cumprimentou a todos no escritório e partiu para o trabalho. O rapaz que cuidava das digitais ainda não tinha chegado quando o investigador falou para André se arrumar. Houve outro assassinato.

Mais uma vez era um condomínio no subúrbio da cidade. A cena era bem parecida com a outra. Uma senhora morta com um tiro. Daniel logo que chegou calçou as luvas e começou a olhar o chão mirando uma lanterna.

— O quê procura? – diz André

— O assassino não levou o cartucho… – disse murmurando.

Depois de vasculhar por um tempo o chão da sala, Daniel puxou com uma pinça o cartucho vazio da arma. Embrulhou em um saco plástico e deu a André que estava estupefato. Então se virou a passou a trabalhar o cadáver.

Era uma senhora de uns 60 anos com a marca de bala na testa. A infeliz nem teve tempo de tirar o pijama e pelo copo de vidro quebrado no chão ainda com vestígios de água, ela parece ter se levantado apenas para matar a sede.

O investigador ficou um bom tempo olhando para o corpo de diversos ângulos. Verificou que a bala ainda devia estar dentro da cabeça dela. Enfiou uma caneta no ferimento e constatou que deveria ser a mesma arma usada anteriormente.

— André – chamou o detetive –, há uma digital no interruptor de luz.

Realmente havia a digital. Daniel se levantou e disse para o legista retirar o corpo, pois não havia mais nada a fazer ali.

De posse das provas André pegou o carro e começou a voltar. Seu bip tocou, era o Otávio que cuidava da balística avisando que a arma era de um policial. Quando terminou de ver a mensagem ele nem podia acreditar no que lera. Seria possível?

Voltou ao escritório e Daniel lia o jornal, ele o cumprimentou e perguntou se ele ficou sabendo sobre a balística.

— Não – disse o detetive.

— A arma é de um policial.

Daniel fez um olhar de desaprovação e murmurou que não se podia confiar em ninguém. André levou as digitais para a análise e ficou para ajudar. Quando começaram a fazer a comparação no banco de dados, logo obtiveram resultado. O assassino era Daniel.

Eles se olharem e enfim viram o investigador ainda a ler o jornal. André pegou as algemas e se aproximou de Daniel que lia sossegado. O detetive olhou para o novato, deixou o jornal de lado e estendeu as mãos para ser algemado.

O departamento ficou em silêncio enquanto André levava o detetive para a cela. Daniel estava impassível e assim permaneceu. Quando chegou o dia de seu julgamento ele confessou os crimes e mais alguns que estavam arquivados na polícia por falta de provas, dando detalhes que eram impossíveis de se saber se não tivesse sido ele.

Assim se desfez a lenda chamada Daniel.

Notas do Autor

Publicado originalmente em 25/09/2009 e corrigido 17/09/2014. O final inesperado é uma alusão aos livros policiais que eu lia quando criança, com provas ora impossíveis de se descobrir ora completamente ilógicas. O detetive tinha sempre aquele ar superior de estar completamente no controle, como se fosse realmente o criminoso, tão bem que conhecia a cena do crime.