Medos e Lendas

Medos e Lendas

por Pedro Moreno

Medo…

Uma sensação tão humana que quando eu comecei a sentir até achei estranho e deslocado tal manifestação corpórea. Há lendas sobre vampiros que por uma vez o coração bateu e eles voltaram a serem humanos de novo por alguns míseros segundos antes de definhar até a abençoada morte final.

Mas lendas são lendas…

Me lembro quando era pequeno e me enchia de livros sobre seres fantásticos, livros esses que faziam um sucesso enorme na época, quando grandes trovadores empunhavam sua pena como um soldado seu fuzil. E o maior dos bardos alcançava seu reconhecimento tão póstumo.

Era uma época na qual eu não sentia medo…

Os galhos das árvores castigam meu rosto pálido que contrasta com a escuridão densa da mata. Posso dizer que sou uma criatura noturna e urbana. Um verdadeiro cosmopolita, logo a maldita floresta na qual me encontro só atrapalha a minha fuga, volta meia consigo sentir o cheiro da meu predador se aproximando. Um odor forte de lobo misturado com morte.

Conheci a morte pela primeira vez há muito tempo em uma biblioteca. Tive a brilhante idéia de me esconder do funcionário e ficar lendo depois que o prédio fechasse. As duas primeiras horas foram ótimas. Depois disso ouvi um barulho de pés se arrastando.

Achando que fosse algum vigia noturno me escondi embaixo de uma grande prateleira que estava vazia e esperei.

Uma figura grotesca e esfarrapada entrou no salão carregando uma pequena pilha de livros volumosos. Ficou lá por horas a fio virando e revirando tomos velhos e esgarçados.

Medo…

Um grande desfiladeiro se aproxima, mortais não viriam tal peça da natureza e com certeza encontrariam a morte certa. Mas como ser pretensiosamente superior pude enxergar mesmo no breu noturno a armadilha e pulei a tempo em um galho roto de uma árvore. Rezei.

Depois de um silêncio mortal a voz da criatura irrompe na biblioteca e ecoa por sobre os livros, “Eu já ti vi…” Senti meu coração batendo tão forte que era palpável na garganta, como se tentasse pular para fora do meu corpo. Em menos de um segundo ele estava em pé na minha frente com seus olhos amarelos me fitando. Desacordei.

De cima da árvore esperei meu predador passar reto por mim e ele passou. Como um trovão negro ele deslizou ribanceira abaixo e se embrenhou na mata. Apesar de não respirar soltei o ar dos pulmões como se pudesse obter algum alívio maior depois disso. Um uivo cortou a noite de ponta a ponta e os cabelos da minha nuca se arrepiaram involuntariamente, por um momento eu descansei meu corpo morto em cima da árvore.

Devo ter apagado por algumas horas ou minutos, nem sei por quanto tempo fiquei em cima da árvore quando abri os olhos vi meu predador voltando. Seu corpo peludo em nada devia às antigas lendas de lobisomem que ouvia de minha avó. Corpulento e negro como a noite, ele passava pela floresta sem fazer qualquer barulho e é bem provável que se eu não tivesse aberto os olhos me mataria sem eu perceber. Um lobisomem , igual os das lendas me seguia.

Mas lendas são lendas…

Há uma semana atrás eu descobrira por acaso seu covil e desde então o desgraçado me rastreia e parece que não adianta fugir de sua ira. Tentei várias formas de matá-lo, como os livros de lendas descreviam, com balas de pratas e demais traquitanas que só o faziam urrar de dor e continuar a perseguir-me cade vez mais feroz. Por sorte consegui sempre lugares seguros para dormir quando o sol amaldiçoa os amaldiçoados, mas toda noite o desgraçado consegue me achar e continua no meu encalço.

Ouço a respiração pesada de meu predador que caminha em direção a  árvore, com os olhos baixos como se tentasse achar uma pegada ou algo parecido. Então o lobo homem passa bem por debaixo do galho em que me situo, no entanto, não vejo sua enorme sombra passar do outro lado. Penso que talvez ele tenha ficado embaixo da árvore pois encontrara uma pegada minha.

Por três longos segundos não vejo e não ouço nada. E então de súbito sou jogado com violência no chão e empalado com o próprio galho no qual repousava. A dor invadiu meu corpo inteiro e então fui imobilizado. Meu raptor me olhou nos olhos e sorriu…

Este é o terceiro mês no qual sou prisioneiro desta gangue de lobisomens e todos os dias eles me fazem perguntas sobre os outros vampiros e suas localizações. Ou conto e encontro a morte pelas mãos de meus iguais ou me calo e encontro a morte pelas mãos deles.

Era uma época na qual eu não sentia medo…

Notas do autor.

Publicado originalmente em 14/08/2009 e revisado em 24/09/2014, o conto Medos e Lendas é baseado no clássico embate entre vampiros e lobisomens, muito explorado pela mídia. Eu nunca gostei desse conto, hoje escreveria totalmente diferente.