Como pedir desconto e seduzir uma mulher

O título parece bem estranho, mas vou explicar para você.

Conhece o livro A Arte da Guerra de Zun Tzu?

Sun Tzu foi um lendário, beirando ao mítico, estrategista chinês conhecido por seu livro: A Arte da Guerra. Um misto de estratégias militares utilizados por diversos generais do mundo inteiro.

Hoje ele é mais famoso entre os não militares, tendo versões que aplicam os conhecimentos de Sun Tzu em áreas como economia, administração e vida pessoal.

Hoje quando atendi um cliente, que era a primeira vez que apareceu na loja nesses 9 anos que cá estou, tive essa ideia: Transformar o seu diálogo e estratégias para conseguir desconto em um plano infalível para você se dar bem com as mulheres.

Obs: Se você não gostar de mulheres, pode substituir por homens sem problemas, apenas adeque o texto para o seu caso.

Parte 1 – A aproximação

Logo que chegou o cliente disse um sonoro “bom dia” e antes que pudesse responder ele disse que a loja estava vazia nesse horário e provavelmente o concorrente estava lotado de gente.

Transpondo isso para uma situação real, imagine você em um bar a música toca um pouco alta e luzes piscam na pista, você enxerga a moça parada no balcão sozinha com uma bebida a lhe acompanhar. Você chega ao lado dela e diz.

– Boa noite. Você deve ser a única sozinha aqui, todas estão já acompanhadas.

Você pode enxergar nesse momento que o interesse dela foi despertado no mesmo instante.

 

Parte II – O desenrolar

Nesse momento o meu cliente viu que eu lhe cortei o assunto e perguntei o que ele precisava, porém continuou dizendo que tudo estava muito vazio e um dia ali já foi mais cheio.

Esse é um ponto chave do seu flerte.

– É que eu acabei de chegar – diz a moça um pouco sem graça.

– Também pudera que você está sozinha. As outras mulheres são bem mais bonitas que você, aposto que quando você era mais nova já estaria com um homem à essa hora – diz você mostrando todas as suas armas de sedução.

Parte III – O abate

Não respondendo aos comentários do cliente fui pegar a peça e falei o valor, logo em seguida ele perguntou “Tem desconto?”.

Na vida real…

– Sério mesmo cara?! O que você quer afinal? – pergunta a mulher levemente alterada.

– Quer transar?

Bingo!

Ela é sua cara, toda sua! Não tem como não conseguir depois disso!

Então ficou esse valiosíssimo aprendizado no dia de hoje e espero de coração o sucesso em seus relacionamentos, desde que sigam à risca esses passos.

 

Está no Procon!

“Está no Procon!”

A frase já nasce errada tal qual passeata pelo “Orgulho Hétero”, como se fosse algo muito difícil ser hétero por aqui. Para começo de conversa o Procon é uma fundação com o objetivo de proteção e defesa do consumidor. Não são eles que fazem leis e tampouco são responsáveis por fazer elas serem cumpridas.

Ainda assim é um órgão importante! Principalmente para o comércio. Posso apostar que por causa dele todo comerciante já se interessou pelas leis do consumidor, nem que por medo que tal órgão batesse à sua porta. E se tem alguma coisa com a qual o comerciante se importa é o seu bolso.

Eu não sou diferente. Li o código do consumidor sim, não da forma como os estudiosos de direito o fazem, mas amadoramente apenas com a pretensão de saber o que posso e não preciso fazer.

Sim. Não “precisar fazer” é de grande ajuda.

O comércio de forma geral tenta sempre ser bondoso em muitos aspectos. As trocas, por exemplo, são uma cortesia e não obrigação. Ninguém é obrigado a trocar aquela calça que você ganhou da tua tia-avó que ainda acredita que você pesa vinte quilos a menos, mas se faz isso como forma de cativar o cliente.

Porém tais regalias ganharam ares de obrigação e é isso que me incomoda. Eu não troco peças elétricas ou eletrônicas e deixo isso bem avisado. Porque eu sei o que os clientes fazem, não sabem ao certo o defeito, compram a peça e testam na máquina para então descobrir que não era esse o problema. Depois vêm à loja para efetuar uma troca por outra coisa.

Uma coisa que não gosto: Mau caratismo. Caso você deseje economizar dinheiro não chamando um técnico para ver seu eletrodoméstico, terá que arcar com as consequências de gastar dinheiro com a troca de peças que estavam boas. A vida é assim mesmo, quem não sabe se arrisca e pode pagar mais caro.

Eu não preciso trocar peças elétricas, logo não o faço. O mesmo vale para o técnico que diz “A cliente desistiu do serviço”. Claro. Eu nasci ontem de realmente acreditar que a peça, fora da embalagem e com marcas de uso, realmente não precisou ser usada. Sou ingênuo, afinal!

Certa vez um cliente ao comprar disse que estava na lei o desconto para pagamento à vista. Disse que não e ele começou a se alterar, inclusive dando um número de “10% para pagamento em dinheiro!”. É claro que tal absurdo não existe em lei nenhuma e mesmo que existisse esse valor seria agregado ao valor de todas as mercadorias para quando dessem o “desconto” o valor chegasse ao lucro normal.

Disse que não dava o desconto. Ele esbravejou o quanto pôde. Joguei o código do consumidor à sua frente “Então acha onde está escrito isso”. Desde que os comércios foram obrigados a manter um livro desses disponível para consulta a minha vida de comerciante ficou muito mais fácil. Ninguém até hoje teve coragem de procurar na lei, em um misto de preguiça e falta de intimidade com a linguagem jurídica ou até no próprio português, essa língua alienígena na vida de alguns.

Até hoje já fui “ameaçado de Procon” quatro vezes e em nenhuma aconteceu nada por dois motivos simples. O primeiro é o mais óbvio, se você não tem razão não vale a pena ir passar o ridículo de precisar de um desconhecido te avisar disso. O segundo é a nota fiscal.

Eu já falei sobre Nota Fiscal aqui e esse importante documento ninguém lembra de guardar. Isso mesmo, as pessoas jogam fora a nota e quando vão ao Procon descobrem que sequer são atendidas sem ela. Que pena!

Mas as coisas são assim por aqui, para justificar seus desejos até leis são inventadas.

 

Conheça mais sobre o projeto Devoção ao Comércio.

 

 

Resumo do dia para aspirantes ao comércio

Bom dia meus queridos? Tudo bom? Como está a vida?

Não é interessante essa coisa de escrever? Pois agora mesmo estou uma pilha de nervos, com as mãos tremendo de raiva e tudo parece bem!

Isso não é ótimo?

Esse pequeno texto que escrevo agora relata o dia de hoje: 30/10/2014 e você pode acompanhar como é o dia de quem tem um comércio. Vamos começar?

6:40 am – Acordei. Apesar de abrir às 8:00, é impossível chegar no trabalho saindo depois das sete, ainda mais com tantas reformas em Carapicuíba que deixam o trânsito um caos, fazendo com que muitos clientes procuram em suas cidades por outras lojas, mesmo que tenham um preço elevado.

7:40 am – Chego na cidade e há uma faixa “Prestigie o comércio de sua cidade”

Nível irritação: baixo

8:40 am – Discuto com um fornecedor. Confiei que o entregador pediria alteração na nota, ele não pediu e teima que a mercadoria foi entregue corretamente.

Nível de irritação: médio

10:20 am – Uma senhora pede o valor de uma placa, peço o modelo de sua máquina e ela desconhece. “Eu preciso realmente saber o modelo da máquina…” Sou interrompido bruscamente comum grito “Deixa eu falar!”. Ela passa a detalhar que um mecânico (que não conheço) foi mexer em sua máquina (que ainda não sei qual é) e levou a placa embora (que não faz diferença) e ele se mudou de cidade (o que não importa) e o desabafo dura 23 minutos.

Nível de irritação: médio para alto

10:43 am – Enquanto a senhora desfia todos seus problemas o gato resolve se esfregar em mim, eu instintivamente o seguro nas mãos. ATENÇÃO que agora fica complicado: Minha mãe, que trabalha comigo, passa pela máquina de gás refrigerante, aciona a válvula com o corpo deixando vazar um gás que custa R$ 47,00 o kilo. Eu viro o corpo para fechar a válvula, porém estou segurando o gato que se assusta, me arranha na barriga. Minha mãe continua de costas e o gás vazando. Solto o gato que utiliza meu corpo de escada para fugir enquanto desligo o gás. Estou sangrando, olho para a senhora e ela ainda está reclamando de alguém que não conheço.

Nível de irritação: Altíssimo

11:10 am – Um senhor, que veio no dia anterior, veio devolver uma peça que garantiu ser a certa. Trouxe com ele mais duas pessoas para discutir.

Nível de irritação: Incrível Hulk

11:59 am – Melhor comprar alguma coisa para comer, pois não conseguirei almoçar sossegado. Compro batatas-fritas e levo para o caixa. Começo a comer.

12:02 pm – O balcão já encheu e eu nem cheguei na metade. Largo o almoço e começo a atender. Minha mãe está atendendo um cliente e passo para os outros.

12:15 pm – Esvazio os clientes da loja. Acabei por atender cinco que esperavam. Minha mãe continua no primeiro. Resolvo voltar para as batatas.

Nível de irritação – Sem alterações.

12:30 pm – Chega um fornecedor. Volto para o balcão e atendo um rapaz que de manhã levou uma peça que “não pode ser trocada” E advinha o que ele queria? Sim. Trocar a peça. Não adiantará avisa-lo que o problema é na instalação e perderia meu tempo dizendo que não era para trocar e ele concordou com isso quando comprou. Devolvo o dinheiro.

Nível de irritação – Você é a única pessoa no meio do deserto com um copo de água. Enquanto anda você não repara que brotou uma cristaleira na sua frente e você acerta seu dedo mindinho do pé em cheio na madeira e o copo cai emborcado na areia esvaziando todo o seu conteúdo.

12:35 pm- Termino o texto e me dou conta que não cheguei na metade do dia e enquanto eu escrevia já atendi a cinco pessoas que queriam trocar notas por moedas para o estacionamento rotativo.

Nível de irritação: Pedro Moreno

 

 

Pequenos Diálogos – Parte II

Nem todo diálogo que se desenvolve na loja merece um texto por completo, então resolvi colocar diversas dessas conversas sem pé nem cabeça em uma só publicação, para assim vocês entenderem porque o roteirista do Bob Esponja e da minha vida são a mesma pessoa.

Veja também a Parte I

Cliente: Eu queria essa peça aqui (entrega a peça)

Vendedor: Opa, para já! (pega a peça e coloca ao lado da antiga)

C: Quanto fica?

V: (Olhando no computador) Só um minuto que já vejo.

C: (Pega a peça nova, por engano e começa a quebrar na calçada)

V: O que o senhor está fazendo?!

C: Essa aqui não serve pra mais nada!

V: Senhor, essa é a nova!

C: (Olha para a peça que acabara de quebrar com cara de assustado)

Cliente: (Por telefone) Opa, eu estou com um cliente aqui e é o seguinte. Eu fiz um conserto na geladeira dele e dei três meses de garantia, que já se passaram. Porém a peça que comprei de vocês tem um ano de garantia.

Vendedor: É só trazer.

C: Então… Só que o cliente não quer pagar de novo pelo meu serviço e disse que por lei você que deve pagar.

V:…

C: Alô?!

V: Você sabe que não é assim, certo?

C: Sei. Mas queria ter certeza.

Cliente: Eu queria um cano de cobre que dê para fazer a embreagem do Chevette.

Balconista: E de que espessura é esse cano?

C: Não sei. Você não sabe?

B: Não. Nós trabalhamos com geladeira aqui.

C: Mas de todos os Chevettes é a mesma espessura!

B: Pode até ser senhor, mas eu não sei. Não trabalho com peças de carro.

C: Como você não sabe? (Visivelmente irritado) Você nunca viu a embreagem do Chevette?

B: Senhor. Eu nem sei onde fica a embreagem do meu carro, imagina do Chevette!

C: Mas é tudo igual!

B: Beleza. Então me diga você qual é a espessura!

C: Eu não sei!

B: Como você não sabe?!

C: Sei lá, eu não trabalho com mecânica!

B: NEM EU!!!

Cliente: (Muito irritado) Eu comprei essa merda aqui, fui instalar lá em Taboão da Serra e não funcionou!

Balconista: (Olha para a peça) É 220 volts?

C: É sim!

B: Está ligado errado (faz a ligação e funciona)

C: Ok. (pega a peça irritado e entra no carro)

Cliente: Quanto está o compressor desse modelo aqui (entrega um papel)

Balconista: Está R$ 160,00

Cliente: ENFIA NO CU ESSA MERDA ENTÃO! (Sai da loja batendo o pé)

A tecnologia matou a comunicação

Pode parecer estranho, mas a tecnologia está matando a comunicação.

Quando meu pai abriu a loja, há uns 20 anos atrás, se a pessoa queria uma peça das duas uma: Ou a pessoa levava a defeituosa ou sabia desenhar bem.

Era uma época de mímicas, manuais que continham todas as peças e seus nomes (o nome disse era explosão) e anotações contendo tudo que estava escrito no eletrodoméstico.

Aos poucos começaram a surgir os celulares, mas apenas com a popularização deles que os técnicos passaram a utilizar esse poderoso instrumento em seus trabalhos. Agora era possível receber o serviço enquanto estava na rua, cotar preços ainda na casa do cliente e outras comodidades.

Com essas comodidades também começaram a aparecer os problemas. O técnico, antes atencioso, passou a deixar de ir à casa do cliente ver o eletrodoméstico e passou a imaginar qual era o defeito pela descrição passada por telefone.

Agora imagine o seu carro. Você liga para a mecânica e fala o que acontece com o automóvel, o mecânico do outro lado diz saber o problema, compra a peça e chega na sua casa para já instalar.

Você acreditaria no serviço deste cidadão?

Com isso também passou a acontecer de não haver mais as anotações, o técnico pedir a peça e quando pedido sobre o modelo, saca o celular do bolso e liga para o cliente para perguntar para o cliente, que invariavelmente não sabe onde ver, afinal este não trabalha no ramo!

E a coisa começou a ficar pior. Com o advento das câmeras, as peças defeituosas ficaram mais raras de serem tiradas. O que aparecem são fotos de 2 megapixels e mal focadas, com um cliente atrás do aparelho dizendo “É essa peça aqui!”.

Vou exemplificar, a foto abaixo são de pressostatos. Cada um serve para uma máquina em específico e se colocar o errado ele não funciona:

pressostatos

* Todos eles são pressostatos

* Todos eles são pressostatos da Brastemp

* Todos eles são pressostatos da Brastemp Eletrônica

* Todos eles são pressostatos da Brastemp Eletrônica com cinco botões

* Todos eles são pressostatos da Brastemp Eletrônica com cinco botões. “Aquele branquinha, mais antiga com puxador do lado, com uma placa que você aperta e faz pi pi, é das normais!”

Pois é… Não dá para ver a diferença deles só olhando. Agora imagina em uma foto de celular.

Tenho medo do próximo avanço da tecnologia.

Pequenos diálogos – Parte I

Nem todo diálogo que se desenvolve na loja merece um texto por completo, então resolvi colocar diversas dessas conversas sem pé nem cabeça em uma só publicação, para assim vocês entenderem porque o roteirista do Bob Esponja e da minha vida são a mesma pessoa.

 

Cliente: Eu quero uma mola

Balconista: Que mola?

C: A mola!

B: Ok, mas qual mola? De que máquina?

C: A mola! (gritando) Eu quero a mola! Vá a merda então! (Sai da loja)

Cliente: Eu quero controle remoto de televisão.

Balconista: Aqui é refrigeração, controle de TV é do outro lado da rua, ali no toldo azul.

C: (Olha para onde apontei) Será que lá tem o meu?

B: Isso eu não sei, tem que perguntar lá.

C: Sem certeza fica difícil… Volto amanhã.

Cliente: Opa, onde tem uma casa de diversão por aqui?

Balconista: Uma casa de diversão?

C: É, você sabe. Um lugar para se divertir.

B. Ah… Você está falando de zona, tem uma na rua de trás.

Cliente: Será que vocês têm o que eu quero?

Balconista: O que você quer?

C: Tem ou não?

B: …

C: Tem ou não?

B: O que você quer?

C: Mas você sabe onde tem?

B: O QUE SENHOR?!

C: (Procura nos bolsos) Ih… Esqueci em casa.

Cliente: (Sem nada nas mãos) Tem?

Balconista: (Entrando na brincadeira) Tenho!

C: Vê dois então!

Cliente: Estou procurando um botão da minha máquina.

Balconista: Qual a marca e modelo.

Cliente: Não lembro.

B: Aí fica difícil. Trouxe o botão?

C: Não… Vai falando as marcas.

B: Tem Eletrolux.

C: Isso! Luxo!

B: Tem Brastemp.

C: Isso! Temp!

B:Tem Enxuta.

C: Isso! Chuta!

B: Seria bom trazer a marca para levar o certo.

C: Vê desse aí.

B: Qual?

C: Desse aí que você falou.

B: Senhor. Traz a marca pra mim, por favor.

Cliente: Eu quero aquela peça que vem aqui (começa a gesticular) passa assim, faz assim e vira desse jeito, da minha máquina.

Balconista: Onde vai essa peça?

C: Não sei, foi o mecânico que tirou.

B: Com essa descrição fica difícil saber o que é.

C: Mas ela vai assim (volta gesticular) aí tem uma curva assim, vira e faz uma volta! Só tem ela assim!

B: Desenha pra mim (entrega papel e lápis).

C: Não sei desenhar.

B: Então, vou precisar da peça mesmo.

C: Não, não precisa! A peça é assim, vira assim…

B: Cara, fica muito difícil desse jeito, são muitas máquinas de lavar.

C: Mas a minha é uma máquina de costura.

B: …. Eu não trabalho com máquina de costura.

C: Mas você não tem a peça.

B: … Não…

Cliente: Vou querer algumas coisas (dá a lista)

Balconista (Separa todos os itens, são mais de trinta) Só ficou faltando esse aqui.
Cliente: Caramba, você não tem nada aqui!

Balconista: (No banco, será atendido em seguida, na sua frente uma senhora)

Senhora: Eu queria fazer um depósito para esta conta aqui (entrega um papel)

Caixa: É conta-corrente?

Senhora: Se eu estou contente?!

Balconista: (Desata a rir sem controle)

Cliente: Tem botão para máquina de lavar?

Balconista: Qual a marca e modelo?

C: Tem que saber isso?

Cliente: Tem essa peça? (mostra a peça)

Balconista: Tenho sim, está R$ 25,00.

C: Pago R$ 15,00

B: É R$ 25,00, senhor.

C: Eita cara ruim de negócio… (Vai embora)

Baquelite, antimônio e borracha

Vamos nos lembrar daquelas aulas do Ensino Fundamental no qual se aprendia sobre as Figuras de Linguagem, recursos utilizados por quem fala, ou escreve, para dar mais força, colorido, beleza e intensidade ao texto.

Falando assim parece bem bonito!

Porém sofro de um problema, deveras sério, com a Metonímia, conhecida por sua arte de usar uma palavra por outra, mesmo sabendo que esta não é sinônimo, apenas relacionada. Em especifico o que me tira o sono é a matéria pelo objeto.

Não sou nenhum pouco contra esse tipo de figura de linguagem, acho bonito, estiloso e uso, como qualquer cidadão. Porém no trabalho, sobre “a fria letra da lei”, esse tipo de estilismo fica um pouco deturpado e só atrapalha a comunicação, no final todas as peças que vendo viram baquelite, antimônio e borracha.

Nada mais comum que o cliente encostar no balcão e pedir a borracha de sua máquina de lavar. Muitas vezes até mecânicos utilizam esse recurso quando desconhecem o nome correto de uma peça. Mas pensemos bem sobre o assunto: Borracha é um material, e não a peça. Imagine um sistema de utiliza água, caso das máquinas de lavar, quantas peças de borracha você imagina que tem?

Gosto de exemplos.  De cabeça, sem consultar o manual, vou discriminar as peças de uma Brastemp Convencional (modelo Super Luxo)  que são feitas de borracha ou levam tal material na composição:

  • Correia
  • Guarnição do Tanque
  • Retentor Interno do Tubo
  • Retentor Tanque (carinhosamente chamado de CB: Cu de Burro)
  • Mangueira Saída “Pescoço”
  • Mangueira Saída “Bengala”
  • Mangueira Tanque Base
  • Mangueira Válvula Filtro
  • Mangueira Pressostato
  • Mangueira Saída de Água
  • Mangueira Entrada de Água
  • Vedador Interno Tubo
  • Vedador Mangueira Entrada
  • Vedador Coluna Base
  • Vedador Eixo Agitador
  • Vedador Interno Tubo
  • Vedador interno Coluna
  • Vedador Parafuso Tanque
  • Vedador Eixo Interruptor

Isso é o que me lembrei de cabeça, pois deve ter mais. Agora imagine a situação de alguém que me pede “a borracha da máquina”. Só de mangueiras são sete tipos diferentes, vedadores são mais de dez! Explicar também é um desafio, como você diz qual o ponto de partida e chegada de uma mangueira se nem ao menos conhece o nome das peças?

Mas ao menos borracha é o material correto, o que dizer do baquelite e o antimônio?

Baquelite é uma resina sintética que muito se assemelha ao plástico, sendo o primeiro substituto de sua categoria, usado muito em peças que recebem muito calor ou eletricidade. Porém o termo é utilizado para descrever QUALQUER peça de plástico, isso mesmo, mesmo que o baquelite nem de longe seja plástico!

O antimônio é outra “peça” interessante. De tanto falarem sobre o antimônio tive que pesquisar para descobrir que é um semi-metal de coloração branco azulada, em sua forma estável, muito utilizado em baterias e revestimentos de cabos. Descobri então que nenhuma peça classificada como antimônio leva em sua composição tal metaloide, mesmo assim todas as ligas de alumínio são chamadas de antimônio por alguns clientes. Que ficam deveras irritados caso você não saiba do que estão falando.

Mas nem tudo está perdido. Alguns ainda pedem o nome correto da peça, e quando não sabem seguram o objeto diante de seus olhos e repetem em voz alta, facilitando a vida dele, quando for comprar novamente, e a minha, que mantenho na cabeça os poucos fios de cabelo que me restam.

Aumentando o valor da nota

Algo que acontece muito em comércios é a pessoa pedir para emitir uma nota fiscal, ou pedido, com um valor maior, diferente do que vai efetivamente pagar.

Quando comecei a administrar a loja a primeira vez que me pediram isso eu disse não, o cliente argumentou dizendo que o dono anterior, meu pai, fazia isso sempre, que a peça seria cobrada da cliente e ele não tinha colocado o valor do serviço.

Continuei no não e hoje tenho todo uma reflexão por trás disso.

Pode parecer simples, afinal o que o comerciante perde caso coloque um valor maior na nota?  Perde, e muito!

O primeiro valor a se perder é o monetário, notas fiscais constam o valor e terá sua devida porcentagem paga à União. Mesmo assim alguém pode dizer, faz então um pedido, que não tem valor fiscal, com valor diferente, ainda assim há custos.

O primeiro e mais gritante é o moral. Posso parecer um comerciante antiquado, ou até mesmo raro, porém a honestidade é uma moeda de valor muito alto para quem lida com o público, se você tem o costume de flexibilizar seus valores éticos, o que garante que você não aplique golpes em seus clientes?

Confirmo por experiência que todas as lojas que conheço, que adotam tal prática também vendem peças usadas, “esquecem” de colocar a garantia e outros pequenos golpes.

Depois vem o valor da confiança, algo também necessário para o comércio. Quando você vende algo, você cria com o comprador uma relação de confiança que depende dos dois lados. Atendo muitos outros comércios que confiam em seus funcionários para vir comprar algo e alguns pedem para alterar valores. Eu gostaria que um funcionário meu fizesse isso? A resposta é fácil.

Mas alguns funcionários meus, que hoje já não trabalham comigo, tinham esse costume, herdado de outras épocas. Então aconteceu algo que lhes ensinou a entender o problema por outras questões. Um mecânico levou um pedido com um valor bem acima, consertou a máquina da mulher, porém não achou realmente o defeito e acabou por não mais atender o telefone de sua cliente abandonando-a. Ela descobriu sozinha o defeito e veio tentar pegar o dinheiro de volta, munida de sua nota. Isso mesmo que aconteceu, ela acabou recebendo mais dinheiro pela peça do que haviam pago anteriormente, resultando em prejuízo para o caixa.

Já tive funcionários com uma moral bem baixa,  e essa foi a única forma de exemplificar para eles o quão ruim era emitir notas adulteradas.

Não preciso dizer que perdi muitos clientes por causa disso. Mas pensem comigo, vale a pena manter um cliente desonesto? Para alguns sim, mas não gosto de trabalhar desta forma e sei que a loja poderia estar muito melhor hoje se eu não tivesse ética para com os clientes, fornecedores e funcionários. É afinal o preço a se pagar pela honestidade.

Gostou? Aprovou? Então você se qualifica para ajudar, com doações a partir de R$ 1,00, clique aqui

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Histórias de terror – Parte I

ATENÇÃO.

Essas histórias a seguir não devem ser lidas por pessoas sensíveis e/ou que tenham problemas com histórias sobrenaturais.

Todos os relatos aqui contidos são verdadeiros.

 

Habitar uma casa antiga é assim mesmo. Há uma história budista que diz sobre uma mulher cujo filho adoeceu amargamente, desesperada foi ter com um mestre alguma solução para sua dor. Ele então disse que havia, bastava trazer para si um grão de mostarda proveniente de uma casa que nunca enfrentou um luto.

Ela desesperada bateu em todas as casas procurando por alguma família, porém sempre recebia a mesma resposta: “Muita gente já morreu nessa casa”. ao final de sua busca, voltou para o mestre dizendo “O sofrimento me cegou a ponto de eu imaginar que era a única pessoa que sofria nas mãos da morte”.

E realmente. Não há casa antiga que não tenha morrido ninguém. Quando eu não dirigia essa loja em Carapicuíba, trabalhava no controle de estoque de uma filial que ficava em Osasco, cujo dono do imóvel era uma figura de barba branca que vendia caldo de cana na frente da loja.

Certa feita precisei usar de um final de semana para agilizar o controle de estoque, comentei tal fato para com o proprietário que me disse, “Toma cuidado, o antigo inquilino morreu em um incêndio dentro do banheiro da casa”.

Nem quis saber de mais detalhes, lembro de ter ido embora convicto de que era apenas algo para me assustar. No outro dia acordei atrasado e fui para o trabalho à tarde. Acorrentei a bicicleta no portão enquanto olhei de soslaio para a casa, daqui a algumas horas o sol desapareceria e eu tinha que fazer rápido o serviço.

Comecei  a contar as peças enquanto anotava em uma prancheta e me perdi no tempo e trabalho, como a luz estava acesa não notei que já havia escurecido, só percebendo quando fui ao banheiro. Entrei e fechei a porta atrás de mim. Olhei para o lugar e logo em minha cabeça veio a história do incêndio. Realmente o imóvel era muito velho, com seus tacos soltando e pintura descascada, o banheiro era o único lugar que fora reformado recebendo ladrilhos e móveis novos.

Decidi ser rápido. Fiz minhas obrigações fisiológicas e quando lavava a mão e então ouvi passos. É nesse momento que você começa a pensar melhor na vida. Fiquei um tempo em silêncio com a mão sobre a torneira fechada esperando ouvir de novo. Nada.

Voltei ao trabalho ainda assustado quando ouvi novamente os passos, fui ao corredor vazio escuro e silenciosos esperando que agora eu pudesse identificar de onde vinha, porém nada aconteceu.

Enfurnei-me em outra sala para continuar a contagem quando o telefone tocou. Lembro que era na época do filme O Chamado e o pulo que dei quase derrubou as prateleiras que formavam apertados corredores. Deixei tocar quatro vezes e por fim atendi com meu coração quase saindo da boca. Nenhum som do outro lado da linha. Desliguei o telefone e tomei a decisão, sábia, de não mais trabalhar à noite.

Fechei tudo, subi na bicicleta e dei uma última olhada para o ar tétrico da casa à noite, com suas sombras projetadas em figuras sinistras. Melhor ir embora e só voltar quando tudo estivesse claro.

Não que eu esteja querendo te assustar, mas é melhor você saber mais sobre o projeto clicando aqui.

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As terríveis gaxetas

Segundo o dicionário, a gaxeta é uma junta de material compressível para ser colocada entre duas superfícies metálicas, a fim de vedar a junção contra vazamento de gases ou de líquidos. Popularmente chamada de borracha, por causa de seu material e falta de informação, a gaxeta é aquela guarnição que fica na porta de sua geladeira, responsável por manter o frio do lado de dentro e o calor do lado de fora.

Porém vender uma dessas não é fácil.

Começam as complicações na hora do pedido:

– Bom dia, eu queria uma borracha pra minha geladeira.

– Trouxe a marca, o modelo e a medida?

– É uma Brastemp.

– E o modelo? E a medida?

– Não sei. Só sei que é Brastemp.

Esse é o clássico. A pessoa acredita que todas as gaxetas são iguais perante aos olhos de Deus, logo elas são, de alguma forma estranha, padrão para todas as geladeiras. Para você ter uma ideia de quão absurdo pode ser essa afirmação vá a uma loja de eletrodomésticos e repare nas geladeiras, são iguais? São todas do mesmo tamanho? A pessoa fica uma hora escolhendo o modelo da geladeira em uma loja para ver a que melhor se encaixa no tamanho e suas necessidades e depois tem a coragem de dizer que são todas iguais.

 

geladeiras

 

Tudo igual

Pois é.

Porém alguns são conscientes de que são diferentes as suas geladeiras e aparecem com as piores descrições possíveis

– Qual o modelo da sua geladeira?

– É uma branca, “bujudinha”.

Perfeito. Realmente a cor da geladeira ajuda muito. Fico imaginando alguém comprando uma roda para o carro dizendo que é um “Quatro portas, cor preta”, “Claro senhor, tenho rodas para carros pretos, me acompanhe”.

Agora vamos relembrar as três característica: Marca, modelo e medida.

A terceira, e última, é a que mais dá trabalho, quando falo medida me refiro àquela tradicional que usamos, em centímetros, uma das unidades base do sistema CGS de unidades, mas nem sempre dá certo também.

– Trouxe a medida?

– É 45 por 27.

É esse momento que você pensa se a geladeira é da Barbie. Lembra daquelas réguas escolares de acrílico que você tinha quando pequeno? Ela tinha trinta centímetros, e essa geladeira é um pouco maior que isso.

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Quem nunca bateu no coleguinha com uma dessas curte aqui!

Quando a pessoa não tem a aptidão necessária para manusear uma trena, ou simplesmente não a têm. Pedimos que meça com um barbante e o corte no tamanho de sua gazeta. O que também gera alguns problemas.

– Trouxe a medida?

– Não tinha trena, mas medi sim, são dez palmos e três dedos de altura…

Sim. Há pessoas que acreditam piamente que em um mundo de medidas exatas podem ser utilizados métodos como palmas e dedos. E daí que há diferenças de dois centímetros entre gaxetas? Não há nada mais exato que palmas!

– A medida?

– Está aqui, trouxe esse barbante.

(desenrolo o barbante)

– Mas onde está a altura e largura?

– Medi tudo de uma vez só, passei o barbante no comprimento todo e cortei,

– Como eu vou saber qual era a altura?

– Não tem como saber?

Claro que deve ter. Afinal geladeiras são quadradas, logo todos os lados são iguais! E não foi um só que mediu o perímetro e esperou que adivinhássemos qual era a altura e largura. Mas ainda tem o melhor de todos.

– Trouxe a medida?

– Trouxe sim

Então ele retira um elástico da bolsa, primeiro ele estica em uma posição e diz que essa é a altura, com o mesmo elástico afrouxa um pouco e diz que é a largura.

Como faz para explicar para uma pessoa dessa que esticar um elástico não pode ser considerado uma medida exata? Porque se a pessoa em algum momento acreditou que pudesse ser, fica um pouco difícil convencê-la do contrário.

Pego o elástico estico um pouco além da “medida” dele e pergunto se não é assim. Ele fica um pouco receoso e fala que sim, comprimo para que fique um pouco menor e pergunto de novo. ele começa ficar na dúvida, coça a cabeça e diz que vai arrancar a gaxeta e trazer.

– Negócio complicado esse de borracha!

– É amigo, é bem complicado mesmo.

 

 

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