Eleições chegando

Nesse domingo nós iremos às urnas para votar e aqui seguem alguns conselhos.

Primeiro e mais importante, desconfie de conselhos, inclusive estes aqui. Saiba que todo texto, vídeo ou foto tem algum propósito e geralmente é de te fazer mudar sua posição, ou reforçar alguma que você já tenha. Reflita sobre tudo o que lê, mas apenas mude se fizer sentido para você e suas próprias convicções. De que adianta viver o pensamento alheio? Crie os seus próprios! Abandone todos os conceitos prontos que você tem e viva a novidade, o frescor de novas ideias lhe fará bem. Olhar sobre outras perspectivas o lhe tornará mais afiado e quanto melhor funcionar sua mente, melhores decisões tomará.

Pense no Brasil como uma empresa, cujo dono é você. Votar em um candidato é o mesmo que contratar alguém que lhe representará. Quais qualidade você busca em um funcionário? São as mesmas que você busca em seu político?

Entenda que todos os candidatos terão defeitos. Eles são humanos e erram, tem vícios e deficiências. Você não escolherá a pessoa perfeita, pois esta não existe. A escolha será daquele cujos defeitos você crê que não atrapalharão na vida pública. Fuja de defeitos morais, são esses que acabarão por definir o posicionamento dele sobre temas controversos.

Está pensando em votar alguém que já teve algum cargo público? Pesquise seus feitos e decisões no antigo mandato. Ninguém muda de opinião do dia para noite, provavelmente ele continuará com os mesmos acertos e erros.

Saiba separar o que é o candidato e o que é o partido, porém tenha em mente que as decisões do candidato pouco se distanciam do partido, tal qual o fruto da árvore que nunca cai longe do pé.

Esqueça pesquisas. Alterando datas e amostragens é possível colocar qualquer dado que se precise. Vote em quem você acredita, não pense no voto utilitário.

Entenda a diferença entre voto branco, nulo e na legenda. O voto em branco será preenchido para quem estiver ganhando, o nulo é inválido e você deixará de escolher deixando que os outros o façam por você e a legenda, para cargos de deputados e senador, é um voto para que o partido escolha o candidato.

Converse com seus amigos. Pergunte quais critérios utilizaram para a escolha. Extraia o melhor pensamento de cada um para conseguir fazer o seu.

Não pense como se fizesse parte de uma guilda. Não limite suas escolhas sobre algum grupo que você acredite que faça parte. Não vote no cômico, no descolado e no famoso. Vote em pessoas, não em cargos. Vote no candidato que tenha propostas, não em quem você conhece da televisão, rádio ou internet.

Não retroceda a nossa já frágil política. Espelhe-se nas conquistas de países desenvolvidos e pense nessas mesmas mudanças para o Brasil. Devemos retroceder nosso pensamento para algo inaceitável?

Não acredite que você é o padrão. Há muitos outras pessoas ao redor e nenhuma delas deve ser o padrão também. O candidato deve governar para o país inteiro, não só para você ou um grupo específico. Quem não sabe conviver com diferenças, tampouco deveria ser eleito. Deixe de pensar no microcosmo e pense no macro. Quanto maior o cargo, mais abrangentes tem de ser as propostas.

Acredite no arrependimento sim, mas tome cuidado com a reincidência. O candidato foi considerado culpado e continua a fazer política como se não tivesse, não é alguém confiável.

Por fim, façamos o melhor agora, pois amanhã, depois dos votos computados e os candidatos eleitos, pode ser tarde demais.

Boa sorte para todos nós.

Olha lá o homem!

A cena começa em um supermercado, daqueles comuns por aí com uma fileira de quarenta caixas e apenas cinco com um operador, sendo que dois deles estão esperando alguém lhes trazer troco.

Na morosidade pantanosa do lugar, as filas começam a aumentar com toda sorte de consumidores desde o pãozinho para o café da tarde, quanto ao carrinho cheio da compra do mês. E nessa situação, ali incrustado nem no final, nem no começo da fila, estou eu. Filho legítimo da sociedade capitalista, consumidor ativo e triunfante com um saco de pão e uma bandeja de frios. Obstinado a cumprir minha missão pouco honrosa de abastecer minha mesa com alimento e girar a roda da economia. Enquanto você vê um sujeito comum com um saco de pão, por trás está um dos maiores incentivadores do mercado de capitais. Juro para você!

Mas a fila continua chata e longa. Ficar esperando sua vez faz com que sua mente voe além da imaginação comum, quando percebo, me vejo como um cavaleiro de capa e espada, cavalgando minha montaria em um campo aberto quanto ao longe um enorme monstro se agiganta no horizonte, pronto para ser abatido por mim.

Então sou chamado de volta à realidade.

À minha frente uma criança chora, aquele choro pouco doído, que não produz lágrimas apenas desejos. Conhecido popularmente como “manha”. Produzido por seres humanos ainda em idade infantil quando desejam aqueles brinquedos que vem com balas dentro, estranhamente dispostos à altura de seus olhos nas gôndolas que cercam os caixas.

A mãe, impassível, primeiro tenta a tática do “não estou vendo”. Olha para algum ponto fixo no meio do supermercado. Mas não adiantou, a criança chorava enquanto puxava a sua camiseta, então ela se virou bruscamente, procurou algo que não pude entender de imediato, apontou para mim e disse:

– Olha lá o homem! Se não se comportar ele vai brigar com você!

Lembro de ter arregalado o olho de imediato. Conferi se não tinha saído de casa, por engano, com alguma camiseta que remetia à alguma gangue criminosa ou coisa parecida, mas não era o caso, eu parecia um cidadão comum.

Entre minhas compras nenhum objeto que poderia ser atribuído à algum criminoso. Talvez ao invés de pegar a mussarela eu possa ter me confundido e estar agora portando um machado. Vai saber.

O menino olhou para mim, ele com no máximo um metro de altura e eu com meus 1,83. Parou na hora e eu me senti o pior dos homens, um verdadeiro pária da sociedade, um espreitador das sombras em busca da carne infante para me alimentar. Na outra hora eu era o cavaleiro de armadura reluzente e agora sou o monstro que assusta crianças manhosas.

Logo eu tão pacífico. Nunca entrei em briga, tenho medo de armas e escolhi a profissão de professor! Poderia alguém ser mais gente boa que eu?

A fila aos poucos se dissipou e fui atendido. A criança ainda me lançou um último olhar antes de ser puxada pela mãe, olhos inocentes que diziam “Por favor moço, não me mate”, eu apenas abaixei a cabeça com vergonha de ser um monstro.

Sílvia morreu

Sílvia morreu

Então ela morreu. Fazia tempo que andava mais do lado do barqueiro do que dos vivos. Caso fosse culpada um só fato, podíamos falar sem qualquer dúvida que a bebida a matara.

Sílvia. Sílvia era o nome da mulher. Trinta e poucos anos, mas com jeito de pessoa passou pelos cinquenta há um bom tempo. Nas ruas por onde andava trôpega era chamada apenas de negrinha, não nesse tom pejorativo típico de crianças maleducadas, soava até carinhoso, principalmente vindo de teu amor, Vivi.

O nome dele poucos sabem, a única certeza é a sua moradia, uma casa sem telhados juntando entulhos de toda sorte. Conhecido pelos vizinhos pela sua educação, algo difícil de imaginar por culpa de preconceitos que todos nós temos. Seus cabelos grisalhos revelam poucos fios ainda loiros, o boato que corre à boca pequena indica uma descendência ucraniana ou de qualquer outro país considerado exótico para nós tropicais.

No dia depois da morte de Sílvia, Vivi ainda remoía em seu cachimbo, além do fumo, a saudade de sua preta. Como ele amava aquela mulher. Nos últimos dias a danada dera de adotar uma pomba que pousada em seu ombro andava de um lado para o outro como companhia. Era difícil saber quem sofrera mais maus tratos, a ave ou a mulher. O bicho com sua pata dilacerada por linha de pipa ainda se recuperava enquanto recebia carinho de Sílvia. Era raro ver as duas separadas, quando ganhavam uma bolacha ou biscoito de polvilho, elas repartiam a comida sentadas na guia. Triste e comovente ao mesmo tempo.

O único lugar que a pomba não entrava era no bar. Parece que sabia o que o destino reservava para sua amiga. Com o menor cheiro de álcool a ave já voava para longe. Ficava em cima de uma casa sem moradores em frente ao bar esperando ela ficar sóbria. No próximo dia quando a ressaca tomava conta, a pomba pousava entre as sustentações do telhado e esperava Sílvia acordar de seu sono alcoolista. Quando abria o olho a pomba já se aninhava em seu colo buscando conforto.

O fumo de corda queima lento no cachimbo de madeira escura. Uma lágrima desce pelo rosto do velho Vivi. Era uma das poucas mulheres que ele amou. No fundo de uma garrafa de aguardente um restinho de depressão descansando. Vivi toma de uma só vez e segue até o velório.

Espera o ônibus um bom tempo sob o sol até que este aparece. Ele senta em um dos bancos e os outros passageiros saem de perto, talvez pelo cheiro de pinga impregnado em suas roupas. Vivi olha para suas mãos sujas de trabalho. Alguns vizinhos o ajudam dando trocados em troca de levar entulho ou aparar o mato que cerca quintais. Além disso há muito que sentem dó e entregam dinheiro em boa caridade para um necessitado. Suas unhas pretas tamborilam no banco em busca de sossego em vão.

O velório já é visível quando Vivi desce do ônibus. Suas botas puídas tocam o asfalto e o calor lhe fere os pés, com calma ele percebe um furo grande em seu calçado, quando tiver tempo ele fará uma palmilha de papelão para não mais sentir dor.

O prédio do velório é decadente, paredes descascadas e pintura que já viu muito choro e vela. Em uma sala ladrilhada já é possível ver a pequena multidão, Vivi se aproxima porém nem reconhece sua mulher.

“Ei, Vivi, é por aqui!” Grita um rapaz do outro lado indicando o caminho certo. Sete pessoas. Amigos de bar não são bons companheiros de ir ao velório. Preferem a calma do bar e conforto da pinga. O silêncio predomina. Ninguém sabe ao certo se dá condolências ou reflete sobre a cirrose que consumiu Sílvia, de qualquer modo a mudez é o novo paletó.

Todos estão sentados e logo Vivi acha seu lugar e passa a contemplar seus próprios pés. O terno puído de cor marrom foi doação de igreja e precisara apenas fazer uns poucos remendos. Alguns nem se vestiram para a ocasião, desfilando de camisetas furadas e bonés de eleição. Triste fim de Sílvia.

Um dos amigos trouxe por precaução uma garrafa de boa aguardente, o lacre rompe e o líquido desce amargamente feito realidade pela garganta, o vizinho do lado vê e faz gestos com a língua como se também precisasse. Logo a bebida passa de mão em mão.

A primeira acaba. Logo um deles mendiga um trocado no velório vizinho e outra garrafa é comprada. Mais uma termina. A terceira é rateada com o troco do ônibus de todo mundo e quase não volta do bar tamanha bebedeira que se encontrava o responsável por comprá-la.

Quando percebem todos estão bêbados chorando pela morte de Sílvia. “Ela era mulher de verdade” anuncia Vivi, “bebia feito macho” declamava um dos colegas de aguardente, “sua perda deveria se tornar feriado nacional” reclamava outro. As horas passavam e eles continuavam a beber a morta, alguns já dormiam ao lado do esquife emprestado da prefeitura, outros achavam falta de educação ser derrubado pela bebida em um velório, e corajosamente continuavam bebendo.

No fim sobrou Vivi de pé, acariciando a pele morta da face de sua companheira. “Pretinha, por que você me deixou?” reclamava sentindo o peso da injustiça a lhe corroer o estômago. Ela não mais poderia responder. Vivi imaginava se havia algum lugar reservado no céu para pessoas que nem eles, pobres cidadãos frutos da desigualdade e arrastados para o conforto rápido da bebida. Dragados para longe de suas famílias que agora apenas atravessavam a rua quando os viam. Deveria haver algum lugar para os fracos de espíritos como eles, e nele Sílvia encontraria sua paz. Poderia abraçar novamente sua mãe que morrera do mesmo mal, conheceria, talvez, seu pai que lhe abandonou quando ainda era bebê. Poderia enfim enxugar suas lágrimas no colo do Senhor.

Um resto de consciência ainda sobrara na garrafa. Vivi toma de um só gole e enxerga os servidores do velório vindo levar sua mulher, ele acorda seus últimos amigos para um esforço final. Cada bêbado com sua alça de caixão levando vagarosamente a caixa pelas ruas tortas do cemitério. No final de uma ruela de barro pisado, o buraco daqueles que não tiveram identidade, família ou dinheiro. Sílvia se juntará aos restos mortais de outros como ela, vidas destruídas por vícios ou falhas. Daqui alguns anos a exumação revelará que tanto eles como os que puderão ter um jazigo próprio são feitos da mesma matéria. Não terá como diferenciá-los. O corpo é deitado na vala junto de outros.

Todos dão as mãos e rezam uma oração entrecortada e chorada. Doída no peito daqueles que sabem que a vida é frágil e sem sentido. Aos poucos os corpos são cobertos por terra e nenhuma marcação é colocada, ninguém quer lembrar qual é seu último paradeiro. Logo a terra cobre o que as lágrimas teimavam de fazer. Todos sentam perto da sepultura e acabam com mais uma garrafa ou duas, algo difícil de contar nesse estado.

Vivi toma as últimas doses e acaba deitando. Ele morre engasgado por seu próprio vômito. De longe a pomba de Sílvia pousada sobre o telhado do velório alça voo sem destino certo

Comentários do autor

Silvia morreu foi originalmente um conto enviado para o Prêmio Off-Flip de Literatura.