Depois eu trago o dinheiro

– Cara, não tem como eu ficar te devendo e já trago?

Não, e vou explicar o porquê.
Se a pessoa está com um problema para ser resolvido e não quer perder tempo indo buscar o dinheiro para depois voltar, quem dirá trazer tal dinheiro depois que seu problema já está resolvido.
Ao longo desses 8 anos trabalhando com comércio já perdi muito dinheiro assim. Além disso já perdi chaves de fenda, alicate, um cabo de chupeta e uma escada nesse empréstimo de “já trago”.

Agora vou contar uma história sobre o tema.

Certo dia eu estava atendendo no balcão quando apareceu um rapaz pedindo por um óleo para compressores. Tal óleo custava exatos R$ 15,00, quando eu falo “exatos” é porque sim, eu calculei uma porcentagem de ganho para ele baseada no seu valor, passado por mim pelo fornecedor, mais custos que enfrento para manter o negócio funcionando e um pequeno lucro.

Coloquei o óleo no balcão e anunciei o preço, o rapaz arregalou os olhos e tirou uma nota amassada de R$ 10,00 de seu bolso dizendo que só tinha esse valor e se poderia trazer o restante depois.

Na minha cabeça se forma aquele turbilhão de resposta mal educadas, começando pelo “não te conheço” até o “se você quer me roubar, aponta logo a arma”, mas não. Comércio é lugar de pessoas ponderadas, calmas e pacíficas e no alto de minha paciência apenas disse, “não tem como”.

Aí começa o tormento, “preciso desse óleo para terminar o serviço”, “te trago em menos de uma hora” e o melhor “você não confia em mim?”. Realmente não confio na pessoa trazer o restante do dinheiro, como não confia em ninguém um gato arisco. Nós dois sabemos que acabaremos sendo enganados.

Com o pedido negado, o rapaz sai batendo o pé e bufando enquanto me xinga mentalmente de coisas que não quero imaginar.

Deu uma hora e ele voltou, dessa vez segurando uma nota de R$ 50,00 com as duas mãos, tal qual criança pequena que vai à padaria e leva orgulhosa o dinheiro e a missão que lhe foi confiada.

Mas o destino é um pregador de peças nato. Não sei se ele realmente me xingou mentalmente, mas se o fez o Karma resolveu agir e ele tropeçou na guia enquanto atravessava a rua em direção a loja, acabou por rasgar o dinheiro na minha frente.

Eu lembro de ter me assustado. Não é todo dia que você vê dinheiro sendo rasgado, a não ser em alguns filmes ou órgãos públicos. O rapaz continuou firme, apesar do susto e entrou na loja pedindo pelo óleo. Cara… Eu não iria aceitar uma nota rasgada no meio.  Caso ainda tivesse a chance de eu ir ao banco aquele dia ou fosse o rapaz um cliente ocasional, que não era, eu poderia até pensar, mas não aceito uma nota rasgada de um estranho.

Diante da nova negativa ele ficou mais bravo ainda e conseguiu soltar a pérola “Mas eu acabei de rasgar”.

Claro! Agora fez toda diferença!

“Amigo, você pode ter a rasgado agora ou no mês passado, isso não faz diferença.” respondi no maior tom cordial possível que conseguia fazer naquela situação insólita. Ele ainda olhou para a nota rasgada como se não acreditasse na falta de sorte, voltou a sair, bater o pé e me xingar mentalmente.

Voltou depois de uma hora, agora com uma nota de R$20,00 e inteira. Jogou no balcão e gritou: “Toma essa merda de dinheiro”, dei o óleo, o troco e sorri.

“Obrigado e bom serviço”.

🙂

 

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Cadê o meu rádio?

– Oi, eu vim pegar meu rádio.

No começo pareceu bem simples, a mulher queria o seu rádio. Porém o assunto é um pouco complicado e ficará pior com o desenvolvimento.

Para começar o rosto da mulher é completamente estranho para mim. Nunca a vi e se algum dia, por acaso, nossos caminhos se cruzaram eu não tenho a menor lembrança disso. Depois temos o fator rádio, que também desconheço e com certeza não está de minha posse.

– Senhora, de que rádio você está falando.

Pareceu uma boa perguntar de que rádio ela falava, quem sabe assim ela me dava mais detalhes do mistério e eu, encarnando um Sherlock Holmes, poderia deduzir o mistério e fechar o caso, ao final ainda acendia meu cachimbo e soltava um “Elementar…”.

– Do rádio que eu deixei aqui para consertar.

Então o mistério torna outros ares.  Estou sendo acusado de ser um técnico em eletrônica. Logo eu! Que trabalho com comércio puramente, a barganha de mercadorias por dinheiro como os burgueses do século XI já faziam e passaram esta arte de geração em geração até mim. Tenho que desfazer esse equívoco antes que algo pior aconteça.

– Senhora, aqui nós não fazemos consertos.

Ok. Estou indo bem.

– Como não? Eu deixei meu rádio aqui para ser consertado há duas semanas e até agora nada! Não recebi uma ligação de vocês e estou lá em casa, sem rádio.

Acho que estou enfrentando uma fera e não uma mulher. Talvez argumentos e racionalizações sejam o melhor caminho aqui, mas por enquanto farei o jogo dela.

– Você trouxe a nota?

Por essa ela não esperava!

– Trouxe sim! (Jogou a nota no balcão)

Peguei a nota que constava o recebimento do rádio, a examinei bem e constava o modelo, quanto ficaria o conserto e que dia poderia pegar.

– Senhora, você está no número 68 e deixou o rádio para conserto na eletrônica que fica no 50.

Momento de silêncio. Ela pega a nota para ver se não estou mentindo. Devo ter cara de enganador.

– Eu tenho certeza que deixei aqui.

Talvez uma argumentação lógica não seja o suficiente.

– Senhora, dá uma olhada no número 50 se seu rádio não está lá.

Era minha última chance, estava arriscando tudo que eu tinha ali. Ela pegou a nota e desceu a rua. Deu uns dez minutos subiu com o rádio na mão, não sem antes atravessar a rua para não passar na minha frente.

sherlock-holmes-e-watson

Elementar, meu caro leitor. Elementar.

 

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Eu te entendo

Algumas vezes tenho alguns clientes com uma boa empatia que são capazes, como diz a qualidade, de capturar meus sentimentos.

Hoje estava atendendo uma moça que queria falar com minha mãe, eu pedi para que aguardasse enquanto ela chegasse. Enquanto isso veio uma senhora para pedir uma peça e reproduzo o diálogo

– Eu queria uma pecinha do meu fogão.

– Que peça seria.

– É uma pecinha que fica atrás, você coloca ela na mangueira assim (fazendo gestos com a mão)

– Não vou ter essa peça.

– Mas você sabe do que estou falando?

– Creio que não senhora, porém tenho pouquíssima coisa de fogão. Nós trabalhamos mais com máquina e geladeira e entre as peças que tenho, nenhuma se encaixa na descrição.

– Você não tem fogão em casa? (Em tom irritado)

– (Respiro) Tenho, mas no meu é um cano direto onde vai a mangueira.

Percebendo que não conseguiria ela olhou para a moça que aguardava, não agradeceu e foi embora.

A moça que aguardava minha mãe, olhou para mim “Nossa… Acho que te salvei de uma. A senhora já estava ficando brava” disse. Eu apenas respondi que por aqui era algo normal.

E realmente é.

Parando para pensar eu aprendi a não esperar “Bom dia” ou tampouco ouvir um “Obrigado”. Acostumei a ser maltratado por não saber o diâmetro do cabo do freio de um Fusca, mesmo dizendo que a loja é de refrigeração e eu não tenho um Fusca ou sou mecânico de automóveis.

Realmente a gente se acostuma com muita coisa…

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Fuja enquanto pode

“Para que ser funcionário? Seja seu próprio patrão e abra um comércio!”

Não. Fuja enquanto pode.

Para iniciar este blog, contando as histórias que acumulei em tanto tempo de comércio, quero lhes dar um conselho: Comércio é para quem gosta.

Uma vez minha esposa falou sobre o fato de sua vó ter se casado e conhecido seu cônjuge apenas quando estava no altar. A senhora disse algo como “O amor vem com o tempo”. Muito bonito isso, o amor vir com o tempo da relação, mas no comércio as coisas não são assim, se você não gosta, não adianta. É mais fácil um casamento do que administrar uma loja. É claro que se você aprender a gostar de ser um comerciante, as coisas ficam fáceis e a prosperidade virá. Mas tem que gostar!

Tem que amar perder finais de semana, tem que sentir um tesão a lhe invadir o corpo toda vez que for maltratado por um cliente, tem que desejar dias difíceis os quais não se vende nada, tem que gostar de lidar com faltas de funcionários… Comércio é sacrifício diário.

Tem aqueles que nasceram para o comércio, essa fina nata de pessoas não consegue ficar muito tempo atrás de um balcão e logo se veem administrando uma cadeia de lojas, fazendo com que o atendimento ao cliente vire apenas um hobby que goste de cultivar.

Desses eu tenho inveja.

No dia 18 de Setembro de 1991 meu pai resolveu ser seu próprio chefe. Alugou um imóvel de sua sogra e montou uma loja de refrigeração em Carapicuíba, enquanto ainda trabalhava em um banco à noite. Sentiu que o negócio engrenava e pediu demissão.

Meu pai era um cara que nasceu para o comércio. Era simpático e atraía lealdade das pessoas, seja clientes, fornecedores ou funcionários. Como empregado era péssimo, discutiu com todos os chefes que teve e mudava constantemente de departamento.

Começou com uma loja pequena e quando morreu já tinha três que em nada lembravam o tamanho da primeira.

Com sua morte me veio como herança uma delas. Na época eu estagiava como assessor de imprensa em uma das secretarias públicas de São Paulo, ganhava algo perto de R$ 350,00 por meio período, mas eu gostava do que fazia. Como minha mãe agora dependia de mim, larguei os estudos e o emprego para administrar o lugar. Cargo esse que mantenho até hoje, apesar de sonhar com uma venda e mudança de emprego, fazendo o caminho inverso, trabalhando de noite até conseguir me sustentar e vender a loja.

Esse diário de minhas memórias na loja pode ser meu último esforço de compreensão de meu ofício. Quero deixar aqui registrado todas as alegrias e tristezas que um comerciário passa, para que um dia eu possa reler e sorrir lembrando de um tempo que já é passado.

 

 

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