Meta de Março – Édipo Rei

Édipo Rei de Sófocles, lido conforme minhas metas de 2016.

Édipo Rei é um clássico da tragédia grega, peça que acabou por virar referência na psicanálise. Conta a história de Édipo, filho de Laio com Jocasta, criada pelo dramaturgo grego Sófocles por volta de 427 aec.

édipo rei
Édipo Rei,de Sófocles

Advertido pelo oráculo que seu filho o mataria e casaria com sua esposa Jocasta, Laio acaba por desacreditar tal profecia, tem um filho e abandona a criança com os tornozelos furados para encontrar sua própria morte. Qualquer conhecedor de tragédias gregas sabe que se há algo que não se pode desafiar é o destino dados por oráculos, a criança sobrevive ao ser encontrada por pastores e foi levada a Polibo, rei de Corinto.

Já adulto Édipo, que em grego pode ser traduzido no grego como “pés inchados”, consulta o oráculo e recebe a notícia de seu destino, já ditado para Laio, atordoado ele segue para Tebas onde confirmará tudo aquilo que foi descrito.

Sem saber que Laio era seu pai, o mata na estrada depois de uma desavença, derrota a Esfinge, atormentadora do povo Tebano que em agradecimento o torna rei e acaba por desposar Jocasta, sua mãe.

Mas uma boa tragédia grega não pararia com uma morte apenas, descobrindo o que acontecera Édipo acaba por se cegar e Jocasta se enforca.

No século XIX, Sigmund Freud, pai da psicanálise, utiliza-se da peça para criar o Complexo de Édipo, que trata do conjunto de desejos amorosos e hostis da criança em relação a seus pais, com o desejo pelo sexo oposto e a vontade de assassinar, de forma metafórica ou não, seu progenitor do mesmo sexo.

Édipo Rei é uma tragédia sobre relações familiares e sobre auto investigação. Traz o questionamento básico da filosofia grega da compreensão de seu ser. É tão antropocêntrica que, apesar do destino traçado nos três oráculos, não aparecem os deuses. O destino está traçado, porém cabe ao homem entender os seus desígnios, Édipo se faz perguntas “Quem matou Laio?”  que virará no decorrer da peça “Serei eu o assassino de meu pai?” enfim chega ao cerne de todos os questionamentos: Quem sou eu?

E essa é a pergunta que nos resta responder pelo resto de nossas vidas.

 

Meta de Fevereiro – Prometeu Acorrentado

Prometeu Acorrentado, de Ésquilo, lido conforme minhas metas de 2016.

Prometeu Acorrentado é uma tragédia grega que faz parte de uma trilogia composta por Prometeu acorrentado, Prometeu libertado e Prometeu portador do fogo, porém apenas essa sobreviveu aos dias atuais. Até sua autoria é contestada por parte dos estudiosos que a atribuem a outro autor anônimo.

Prometeu é um dos titãs da mitologia grega e usurpador do fogo divino, metáfora para os meios de subsistência da humanidade. O fruto do seu roubo foi dado aos homens e Prometeu acaba acorrentado no monte Cáucaso por Héfeso, a mando de Zeus, e lá ficaria por 30 mil anos queimando sob o sol e tendo seu fígado bicado por uma águia.

Prometeu acorrentado
Prometeu acorrentado

Prometeu Acorrentado é uma ode contra a tirania. Prometeu acorrentado às rochas recebe consolos e conselhos de seus visitantes para que se arrependa de seu ato, talvez Zeus o tirasse dali, porém mantém sua dignidade e reluta contra sua própria sorte. Engana-se quem acha que a revolta do oprimido contra o opressor é algo inventado por Marx e luta de classes nada mais é que um desejo interno de todo socialista. Os gregos, pais do pensamento moderno ocidental, já discorriam sobre tais intentos desde outrora.

“Em uma só palavra, odeio todos os deuses”, brada Prometeu ainda dizendo que sabe de como será o fim de Zeus e nada fará ou falará para que não ocorra e esse acaba por ser seu destino final. Talvez Prometeu estivesse certo quanto quanto ao destino de Zeus e toda a mitologia grega, agora substituída pela cristã e sua moral consequentemente. Substituímos um salvador da humanidade que até o fim lutou contra a autarquia divina por um filho de Deus, que na tradição cristã é um só, sofredor e de caráter bovino.

 

 

 

Meta de Janeiro – Antígona

Antígona de Sófocles, lido conforme minhas metas de 2016.

coluna

Ler uma tragédia grega é contemplar o passado e a formação do pensamento ocidental em seu mais puro estado. Antígona é uma peça teatral curta, porém de profundo significado. Continuação da também tragédia Édipo Rei, trata da história dos filhos de Édipo: Etéocles, Polinice, Antígona e Ismênia.

Tudo começa com um acordo entre Etéocles e Polinice de revesar o trono de Tebas trocando a posição a cada ano, porém Etéocles, o primeiro a comandar, desiste da troca e Polinice se alinha à cidade vizinha com a finalidade de derrotar seu irmão.

Porém na guerra os dois deram-se o golpe mortal, tombando ao mesmo tempo. Quem assume é seu tio, Creonte irmão de Jocasta, que por sua vez é esposa de Édipo.

Creonte decide que fossem dadas as honrarias fúnebres a Etéocles, que lutou por Tebas, enquanto seu irmão Polinice deveria ficar onde caiu e ser destroçado por animais carniceiros. Além de que nenhum cidadão tebano poderia dar tal sepultamento.

Antígona, triste pelo tratamento dado ao corpo de Polinice, resolve desafiar Creonte e ela mesma o enterra. O soberano sabendo de tal desaforo a prende em um túmulo para que morra de fome, o que dá início ao conjunto de tragédias que se abatem na família.

Antígona enterra seu irmão
Antígona enterra seu irmão Polinice

Nesse clássico há o embate entre a consciência individual, representada por Creonte e seu pensamento déspota de deixar um corpo apodrecer por traição do morto por convicções, notavelmente humanas, mas não no sentido clássico de humanismo, mas sim do que nos é de ruim. Do outro lado Antígona é a consciência coletiva que estabelece o “certo” e o “imoral”, que é ao mesmo tempo o lado religioso (nada mais claro e atual do que a religião definindo morais da sociedade) e sua certeza de que um corpo deve receber os ritos funerários adequados, não importando seus crimes.

Creonte e Antígonas são criminosos cada um a sua maneira. Enquanto Creonte desobedece as tradições, Antígona as leis de seu país. E aos dois, como em toda tragédia grega, há punição na forma de duas mortes pelas quais acabam sendo responsáveis, cada um a sua maneira.

O que nos ensina o perigo dos extremos, de levar às duras penas as leis sociais e pessoais que nos cercam. A dicotomia entre a lei dos deuses e a lei dos homens, realçando os conceitos de direitos subjetivos, dá nascimento há um clássico de leitura fácil e imprescindível para entender o pensamento ocidental.