LAZULI

[00:44, 3/2/2018] ****: LAZULI

Tudo começou com aquele tiro de raspão, estávamos parados no ponto de ônibus e eu pressenti que algo ruim aconteceria, como sempre pressinto e sempre acontece. depois estávamos no ônibus e um vidro estourou, a bala passou entre o meu braço e o seu, lembra?

* * *

Também teve aquela vez que fomos ao bar e depois de muitas doses passamos a encher o saco de todos ali. Vieram uns dois caras de regata com uns tribais daqueles mal feitos e rostos que afrontam quem olha. Lembro de você puxando uma garrafa e acertando logo o maior deles, a garrafa quebrada, sangue, cerveja e cacos espalhados pelo chão. Levamos a pior e ficamos lado a lado no pronto socorro. Como você poderia esquecer, né?

Deu em cima da enfermeira, da médica e até da moça da limpeza. Depois de alta primeiro voltamos ao bar, com a maior cara lavado do universo, e depois que fomos à farmácia comprar os antibióticos.

Teve aquela do churrasco na casa do Boy, onde juramos que não íamos beber e cumprimos até o final. Galera em peso dizendo que nos preferia chumbados na cachaça que aí não daríamos tanto trabalho. Você lembra do Moacir? Tomou tanto tapa no pescoço que ainda deve ter marca de dedo.

Nos metemos em tanta confusão que o delegado do bairro até pensou em fazer uma capivara só nossa, para não perder tempo fazendo duas. O escrivão teve até tendinite e ficou afastado no Carnaval de 97.

Lembra do Otávio? Cachorro cheio de rabujo que nunca tinha visto. Depois de dois meses morando com a gente estava em melhor saúde que você. Pelo brilhante que acastanhava no sol da laje. E quando ensinamos ele a jogar areia nos outros da praia? Época de ouro.

E quando vimos o fantasma? Eu juro que era! Você aí todo racional com toda sorte de teorias sobre física e que a refração de sei lá-o-quê… Cara… Você é foda.

E agora você aí. Nesse caixão cor de lazúli. Todo frio e duro.

 

Cyber-XXX

Cyber-XXX

por Pedro Moreno

Anos de trabalho renderam frutos excelentes. Dr. Isaac Rhudal traçou um objetivo em sua vida: aperfeiçoar androides para que estes possam se misturar aos seres humanos sem haver nada que possa ser diferenciado, e nunca este trabalho esteve tão perto da realidade.

No ano de 2093, os androides já eram uma realidade. Usados na indústria pesada ou em trabalhos de risco, seu desempenho e falta de necessidades fisiológicas, os tornaram trabalhadores incansáveis e além de qualquer expectativa possível. A humanidade hoje colhe os belíssimos frutos dessa parceria entre o homem e máquina, usando-os em diversos campos profissionais onde os homens mostram-se infrutíferos e otimizando o trabalho onde antes só pessoas desempenhavam as funções.

Dez anos depois do “boom”, um cientista chamado de Dr. Paixão, concebeu os primeiros modelos destinados ao prazer sexual humano. De formas voluptuosas e arredondadas, a primeira série foi um sucesso estrondoso e sem precedentes na indústria pornográfica. Os modelos eram diferenciados por sexo e fariam tudo que o dono mandasse, além de ter um “apetite sexual” incontrolável, apesar de haver comandos disponíveis para diminuir esse desejo ou aumentá-lo conforme a necessidade do proprietário.

Esses modelos foram chamados de Cyber-XXX e podiam-se acoplar módulos em seus cérebros eletrônicos para que atendessem as demandas dos clientes. O mercado lançou diversos Gadgets de Pensamento interessantes. Podia-se ter um robô Masoquista ou Sádico, Devasso ou Recatado e outros nem tão legais que pouco fizeram sucesso: Violento, Vulgar e o Casto, o último era o mais engraçado, pois o dono do androide deveria “convencer” o robô a desempenhar sua função, o que garantiu o recolhimento do gadget.

As pessoas que não podiam pagar pela posse de um Cyber-XXX, poderiam alugar um em casas de prostituição especializadas, chamadas de Red Light Machine Houses. Dr. Isaac começou a ver o que o futuro planejava.

Sua ideia surgiu em um café da manhã, enquanto lia as notícias. Deparou-se com um acontecimento estranho: Um rapaz de Nova Iorque desejava se casar com sua androide e entrou com uma ação na justiça. O que pareceu, no primeiro momento, coisa de um maluco, transformou-se em uma nova forma de ver as coisas. O projeto do Cyber-XXX poderia ser melhorado até virar um companheiro para pessoas com problemas de relacionamento. Afinal quem seria melhor para aturar um ser humano senão uma máquina?

Isaac afundou-se na prancheta. Procurou estabelecer tudo aquilo que o ser-humano procura em um parceiro, desde fidelidade até as funções primárias do Cyber-XXX. Encontrou diversos desafios que não poderiam ser resolvidos sem um exemplar de tal androide. Com o auxílio da corporação que pagava por sua pesquisa, o cientista adquiriu um exemplar e esperou ansioso a sua chegada para, enfim, compreender sua mente cibernética.

A campainha tocou e o cientista correu até a entrada, apertou o botão de transparência da porta e esta ficou invisível deixando o entregador e Isaac com contato visual. Ao lado do funcionário uma mulher perfeita, parada esperando que abrissem a porta, o entregador deu um sorriso malicioso e acenou com a cabeça para o doutor que recriminou o jeito com que ele olhara.

Logo que abriu, a mulher olhou docemente para o doutor. Suas curvas ameaçadoras com sua pele de cor negra poderiam mexer com a libido de qualquer um. Seu vestido branco era justo em suas partes mais suculentas. A androide exalava lascividade.

— Oi, meu nome é Taria. Estava com saudades de você – disse a androide e em seguida agarrou o cientista lhe tascando um beijo caliente nos lábios.

Enquanto tentava se desvencilhar do robô, ela o empurrava para dentro do apartamento procurando privacidade. Com os lábios cerrados pelo beijo, Isaac não conseguia falar nenhuma palavra de comando, teve que esperar a androide terminar o beijo para dizer um sonoro “Pare”.

— Claro – disse prontamente a mulher – Como o senhor deseja que eu me comporte?

— Casta!

— Desculpe, módulo não instalado

— Droga – resmungou o cientista.

— Desculpe, módulo não instalado

— Não é isso… – falou o cientista –, quais são os módulos disponíveis?

Os módulos todos eram voltados ao intercurso, o que mais daria tempo para Isaac terminar sua pesquisa ,sem um androide ficar lhe assediando sexualmente, seria o Recatado.

As feições da Taira se transformaram de forma surpreendente e logo deram à ela uma forma doce. Até a cor dos olhos ficaram amendoadas. Isaac ficou um tempo observando aquela linda androide. Ela se aproximou e beijou-o no rosto deixando o cientista corado, pediu licença dizendo que precisava se trocar.

Isaac nem tinha ideia de como eram esses protótipos e ficou intrigado do porque da necessidade dela se trocar, andou suave pelo carpete e espionou o que ela fazia no quarto. Ela soltou o lindo vestido branco, que a deixava com cara de mulher fatal, e procurou, ainda nua, um vestido na mala que trouxera. Tirou outra peça, com aparência campestre e o vestiu se olhando no espelho para ver se ficara bom. O cientista ficara fascinado com a forma que os módulos funcionavam. Ela se vestira conforme a personalidade selecionada.

Taira olhou o cientista através do espelho do quarto e este, mais por reflexo do que por necessidade, se escondeu atrás de uma parede. Bateu com a mão contra a testa e imaginou que ela entendera tudo errado. No mínimo aquela mulher achava que ele estava a espionando se trocar! Apesar de ser isso que ele estivesse fazendo, a intenção era científíca.

Sem mostrar constrangimento, a androide saiu do quarto e parou na sua frente. O cientista ficou sem reação, engoliu seco e esperou a reação dela. Taira corou o rosto e saiu com um risinho baixo.

Incrível! A base para qualquer relacionamento estava praticamente pronta, era só questão de tempo para aperfeiçoar a andróide. Haviam outros robôs capazes de realizar serviços domésticos ou até fazer companhia para idosos. Mas este seria o primeiro a realizar todas essas tarefas e simular um casamento.

Casamento.

Isaac olhou para a foto na parede de sua esposa e lembrou-se de sua condição de viúvo. Faz vinte anos que ela se foi, porém ainda lhe dói no peito toda vez que pensa nela. Enquanto passava a mão no quadro ele imaginou que ela seria a modelo de mulher perfeita.

— Bonita, quem é? – perguntou Taira.

— Uma pessoa – respondeu evasivo o cientista.

Com o dedo na Tela de Acesso Universal pendurada no meio da parede, Isaac abriu o manual de uso da androide para saber como seria possível desligá-la. Ao invés de procurar pela informação resolveu ler tudo. Quando chegou na metade reparou que a androide saía de seu quarto com o mesmo vestido que sua mulher usava no quadro. O cientista irrompeu em fúria e gritou para que ela tirasse aquela roupa imediatamente. A mulher simulou estar magoada e se retirou para o quarto.

Isaac sentou-se no sofá pensando na semelhança entre as duas. Ele não havia especificado o modelo que desejava, pois era possível designar cor de pele, cabelo, altura… Era tudo customizável. Pairava a dúvida da semelhança. As corporações tendiam a vasculhar na vida das pessoas, com a razão de melhorar produtos, será que mandaram o androide com essa aparência propositalmente? Amanhã ligaria para trocar, afinal ainda doía a perda.

Já era noite e o quando o cientista foi dominado pelo sono. Dormiu na poltrona da sala. Ouviu um barulho de ranger de porta e abriu um dos olhos. Ainda embriagado pelo sono ele se espantou ao ver sua mulher, parada na sua frente, vestindo uma camisola que ela adorava usar. Seus olhos lacrimejaram de emoção e ele cedeu.

Acordou pela manhã abraçado com sua esposa. Aos poucos sua sanidade tomava conta dele e então percebeu que usara a androide para seu propósito inicial. Ele deu um pulo e ficou de pé enquanto Taira permanecia deitada como se dormisse. Ele se sentiu mal. Sentiu uma imundice tomar seu corpo pelo o que fizera em com a memória de sua esposa. Partiu para a cozinha e armou-se com uma faca, quando voltou ela estava sentada lhe esperando.

— Quer mais?

Isaac entrou em um frenesi assassino e atacou a androide. Como Taira não tinha nenhum sistema de defesa acabou sendo despedaçada aos poucos pela ira do cientista. Quando recobrou a consciência, estava envolto a um emaranhado de fios, metal e pele sintética. Olhou para o rosto de Taira, perfeito, igual ao de sua mulher, e chorou.

Notas do autor

Cyber-XXX foi publicado originalmente em 12/02/2010 e recebeu alterações em 11/10/2014. Quando eu o releio o conto ainda acho que ficou um pouco pesado, ainda mais com esse desfecho do doutor olhando para o rosto. Geralmente escrevo conforme os meus sentimentos do momento e esse não foi diferente.

Medos e Lendas

Medos e Lendas

por Pedro Moreno

Medo…

Uma sensação tão humana que quando eu comecei a sentir até achei estranho e deslocado tal manifestação corpórea. Há lendas sobre vampiros que por uma vez o coração bateu e eles voltaram a serem humanos de novo por alguns míseros segundos antes de definhar até a abençoada morte final.

Mas lendas são lendas…

Me lembro quando era pequeno e me enchia de livros sobre seres fantásticos, livros esses que faziam um sucesso enorme na época, quando grandes trovadores empunhavam sua pena como um soldado seu fuzil. E o maior dos bardos alcançava seu reconhecimento tão póstumo.

Era uma época na qual eu não sentia medo…

Os galhos das árvores castigam meu rosto pálido que contrasta com a escuridão densa da mata. Posso dizer que sou uma criatura noturna e urbana. Um verdadeiro cosmopolita, logo a maldita floresta na qual me encontro só atrapalha a minha fuga, volta meia consigo sentir o cheiro da meu predador se aproximando. Um odor forte de lobo misturado com morte.

Conheci a morte pela primeira vez há muito tempo em uma biblioteca. Tive a brilhante idéia de me esconder do funcionário e ficar lendo depois que o prédio fechasse. As duas primeiras horas foram ótimas. Depois disso ouvi um barulho de pés se arrastando.

Achando que fosse algum vigia noturno me escondi embaixo de uma grande prateleira que estava vazia e esperei.

Uma figura grotesca e esfarrapada entrou no salão carregando uma pequena pilha de livros volumosos. Ficou lá por horas a fio virando e revirando tomos velhos e esgarçados.

Medo…

Um grande desfiladeiro se aproxima, mortais não viriam tal peça da natureza e com certeza encontrariam a morte certa. Mas como ser pretensiosamente superior pude enxergar mesmo no breu noturno a armadilha e pulei a tempo em um galho roto de uma árvore. Rezei.

Depois de um silêncio mortal a voz da criatura irrompe na biblioteca e ecoa por sobre os livros, “Eu já ti vi…” Senti meu coração batendo tão forte que era palpável na garganta, como se tentasse pular para fora do meu corpo. Em menos de um segundo ele estava em pé na minha frente com seus olhos amarelos me fitando. Desacordei.

De cima da árvore esperei meu predador passar reto por mim e ele passou. Como um trovão negro ele deslizou ribanceira abaixo e se embrenhou na mata. Apesar de não respirar soltei o ar dos pulmões como se pudesse obter algum alívio maior depois disso. Um uivo cortou a noite de ponta a ponta e os cabelos da minha nuca se arrepiaram involuntariamente, por um momento eu descansei meu corpo morto em cima da árvore.

Devo ter apagado por algumas horas ou minutos, nem sei por quanto tempo fiquei em cima da árvore quando abri os olhos vi meu predador voltando. Seu corpo peludo em nada devia às antigas lendas de lobisomem que ouvia de minha avó. Corpulento e negro como a noite, ele passava pela floresta sem fazer qualquer barulho e é bem provável que se eu não tivesse aberto os olhos me mataria sem eu perceber. Um lobisomem , igual os das lendas me seguia.

Mas lendas são lendas…

Há uma semana atrás eu descobrira por acaso seu covil e desde então o desgraçado me rastreia e parece que não adianta fugir de sua ira. Tentei várias formas de matá-lo, como os livros de lendas descreviam, com balas de pratas e demais traquitanas que só o faziam urrar de dor e continuar a perseguir-me cade vez mais feroz. Por sorte consegui sempre lugares seguros para dormir quando o sol amaldiçoa os amaldiçoados, mas toda noite o desgraçado consegue me achar e continua no meu encalço.

Ouço a respiração pesada de meu predador que caminha em direção a  árvore, com os olhos baixos como se tentasse achar uma pegada ou algo parecido. Então o lobo homem passa bem por debaixo do galho em que me situo, no entanto, não vejo sua enorme sombra passar do outro lado. Penso que talvez ele tenha ficado embaixo da árvore pois encontrara uma pegada minha.

Por três longos segundos não vejo e não ouço nada. E então de súbito sou jogado com violência no chão e empalado com o próprio galho no qual repousava. A dor invadiu meu corpo inteiro e então fui imobilizado. Meu raptor me olhou nos olhos e sorriu…

Este é o terceiro mês no qual sou prisioneiro desta gangue de lobisomens e todos os dias eles me fazem perguntas sobre os outros vampiros e suas localizações. Ou conto e encontro a morte pelas mãos de meus iguais ou me calo e encontro a morte pelas mãos deles.

Era uma época na qual eu não sentia medo…

Notas do autor.

Publicado originalmente em 14/08/2009 e revisado em 24/09/2014, o conto Medos e Lendas é baseado no clássico embate entre vampiros e lobisomens, muito explorado pela mídia. Eu nunca gostei desse conto, hoje escreveria totalmente diferente.

Obelisco

Obelisco

por Pedro Moreno

Em uma noite negra com ares amaldiçoados, eu estava em uma taverna pouco auspiciosa esperando talvez por uma morte calma induzida por alguma mistura de Gim com qualquer outro veneno. A porta de madeira range revelando uma figura manca de vestes puídas e olhos saltados, logo senta ao balcão e pede algum líquido de aparência incerta.

Reparo em suas vestes tão típicas que só faltava ter uma placa em sua testa escrito “Marinheiro”. A barba grisalha áspera molhava-se em sua bebida enquanto a garganta era limpa e seu fígado deteriorado. O homem do mar toma mais dois copos e começa a socar o fumo em seu cachimbo, ao terminar procura por algum fósforo em seus bolsos e como não encontra resolvo empresta-lo um e puxar assunto.

O lobo do mar se chama Arthur, começou a navegar ainda cedo aprendendo a profissão com o pai que servira à coroa inglesa. Hoje ele trabalha em rotas comerciais trazendo produtos da Índia e outros países exóticos. Temperos raros, tecidos caros e outras bugigangas se amontoam no porão de seu velho navio A Pérola do Oceano.

Pelo que dizia havia a pouco chegado de viagem e aportado por essas bandas a procura de tripulação para seu navio. Fiquei curioso do porque era necessário tantas pessoas para um navio mercante, logo ele me explicou que sua última viagem custara a vida de muitos de seus homens graças a uma febre marinha que não encontrou a cura.

Como a oferta de emprego era pouca e há meses eu não sabia que era carne em meu prato, decidi embarcar no Pérola rumo à exótica Índia. Arrumei meus poucos pertences em apenas um baú e pela manhã já esperava no porto pela chegada de Arthur. Com a chegada de todos os marinheiros, acomodamos nossa tralha no porão ao lado dos baús de dobrões usados para comprar a mercadoria. Quando o crepúsculo chegou o navio já singrava pelas águas calmas do porto em direção ao velho mar. Conforme avançamos em direção ao oceano o mar já perdia sua paciência conosco e algumas ondas podiam ser vistas. Minha primeira noite em um navio se mostrou em um desastre, mal consegui pregar o olho por causa dos estalos da madeira e o chacoalhar da embarcação, um mero boneco na mão de Poseidon.

Conforme os dias passavam aprendi a fazer os mais diversos nós de ofício, além de outras habilidades exigidas de um marinheiro que eu aos poucos eu me tornara. Os jargões do mar me fascinaram e provavelmente mereceriam um estudo apropriado por algum bom pesquisador. No décimo dia de viagem a luneta no alto do ninho do corvo avistou algo parecido com um farol o que indicaria uma ilha que não constava no nosso mapa. Pela nossa velocidade alcançaríamos o lugar apenas na aurora do outro dia.

A noite trouxe seu negrume encobrindo tudo que não fosse um palmo a frente do nariz. Uma brisa passou por nós trazendo o cheiro de uma tempestade que se aproximava. Quando a lua já ia alta no céu os relâmpagos começaram a cortar a noite iluminando nosso farol. Os marujos estavam preocupados com o fato deste não estar aceso indicando a ilha, trazendo o enorme risco de nosso navio entrar em alguma praia.

A tempestade começou a apertar fazendo nossa embarcação dançar ao ritmo do oceano, era impossível conseguir ficar de pé forçando-me a segurar-me com todas as forças em um dos mastros. Assim ficou por toda a noite e apenas de manhã se acalmou, porém uma neblina forte impedia de nós enxergamos algo além do navio, deixando-nos navegar no escuro.

Estranhamente a neblina ficou para trás nos revelando algo que nos gelou a espinha. Não era um farol o que víamos e fim um obelisco de cor púrpura enterrado no oceano em qualquer terra a vista para lhe segurar. Era feito de pedra e tinha uma cor que eu jamais vira em qualquer lugar e nem imaginava que era possível existir nesse planeta, seu tamanho era maior que qualquer torre de Londres e em seu corpo um conjunto de arranhões formavam um desenho geométrico interessante.

Os homens pareciam assustados com as possibilidades, afinal não a humanidade não tem tecnologia o suficiente para colocar um obelisco deste tamanho em pleno mar aberto sem nada a lhe escorar. Arthur tomou coragem e segui pela proa até chegar bem perto do objeto, com os dedos trêmulos tocou a superfície púrpura.

O que seguiu deixaria os mais corajosos homens tremendo de medo. Um som parecido com uma corneta, porém em uma potência avassaladora, ecoou do obelisco deixando-nos surdos por alguns minutos, o som fora tão forte que até as velas tremeram e algumas ondas pequenas se levantaram da base do monumento. Quando os homens recobraram sua audição tudo continuava no mais terrível silêncio, um filete rubro desceu pelo ouvido de Arthur que continuou paralisado de medo. Tentei tirar nosso capitão do seu estado catatônico mas ele parecia não conseguir ouvir mais nada. Enquanto eu assistia socorro, ouvi um borbulhar de água perto do casco, pendurei-me na murada e vi que o imenso obelisco agora vibrava fazendo a água ao seu redor se movimentar.

Alguns marujos começaram a rezar temendo pelo pior. As ranhuras do obelisco se iluminaram com uma cor dourada como se o monumento abrigasse um sol em seu interior. Com temor que fosse tarde demais acordei os marujos de seus transes e distribuí ordens para içarem velas e virarem o timão para o outro lado, um vento salvador vindo do noroeste impulsionou nosso barco em direção contrária ao monolito de pedra.

Enquanto nos distanciávamos senti um alívio não descritível, nossos olhos ainda acompanhavam o horizonte na direção do obelisco como se este fosse capaz de se desprender do oceano e perseguir-nos. Quando a distância era grande subi no ninho do corvo e com a luneta na mão pude enxergar o obelisco.

O terror tomou conta de mim.

Na superfície do monolito, que outrora estava apenas com as ranhuras, estava coberto por um sem número de tentáculos e em seu topo uma criatura de cor ocre parecida ter vinda do inferno. Seu corpo coberto por escamas exalava uma fumaça esverdeada, do alto de sua grotesca cabeça um par de chifres espiralados iguais a de um carneiro. O monstro abriu sua bocarra em um ângulo obsceno mostrando alguns milhares de dentes pontiagudos, do fundo de sua garganta o som poderoso igual ao de uma corneta ecoa novamente acabando com a coragem dos mais determinados marujos.

Por mais que eu quisesse, não conseguia desgrudar meus olhos da luneta, só parei de observal tal criatura quando esta desapareceu de meu campo de visão. Navegamos por mais alguns dias e alcançamos a inglaterra novamente. O capitão, que delirou a viagem inteira, foi internado no hospital, porém acabou transferido para um manicômio. Fiquei sabendo que ele arrancara seus olhos com as mãos e desenhara uma cópia fiel do monolito na parede do quarto.

Na mesma taverna onde outrora eu conhecera Arthur, o Gim tornou minha única companhia por muitos anos até eu ficar de cama e não mais conseguir ir à tal espelunca. Todas as noites que passei sóbrio desde o ocorrido, quando fecho meus olhos consigo ver com clareza o obelisco e seu som aterrorizador ainda ecoa em minha cabeça.

Notas do autor

Publicado originalmente em 30/11/2010, Obelisco tem um ar lovecraftiano em todos os detalhes, desde o uso do mar, a criatura estranha e a insanidade.

Caixinha de música

Caixinha de Música

por Pedro Moreno

Toda a minha maldição veio na forma de uma simples caixinha de música. Eu sei que você ouve minhas palavras e mal consegue acreditar que um objeto tão simples tenha sido causador de tamanhas desgraças que ocorreram na minha vida. Espere! Não vá embora agora, fique e ouça o relato de um desesperado.

Tudo começou com a morte de minha tia-avó. Nenhum dos herdeiros se prontificou a ficar com a herança, um monte de quinquilharias de mau-gosto e sem um útil aproveitamento. Você sabe que eu não ando bem abonado ultimamente, então decidi retirar as coisas daquele imóvel alugado e vasculhar por algo interessante ou que tivesse um valor no mercado.

O senhorio da casa já havia empacotado as tralhas em quatro caixas de papelão, ainda dei uma olhada nos móveis, mas estes serviriam apenas de lenha para fogueira. O jeito era eu me contentar com que ganhei. Levei com dificuldade as caixas pelo caminho sinuoso, não criei falsas esperanças quanto ao que havia dentro delas, porém não custava tentar.

Chegando em casa abri todas e espalhei o conteúdo pelo chão. Nesse momento comecei a pensar no que levava uma pessoa a juntar tanta porcaria. Eram jornais velhos, cadernos sem páginas, pratos trincados… Definitivamente nada que pudesse ter algum valor.

Enquanto eu chafurdava, senti algo pesado enrolado em uma folha de jornal. Abri o embrulho e encontrei uma caixinha de música. Feita de madeira escura, ao abrir se levanta uma pequena bailarina feita de porcelana que começa a bailar sob a música cadenciada.

Fiquei um tempo sentado no chão apreciando o lindo objeto. Não que alguma vez eu já tenha me enamorado por este tipo de bibelô, porém era tão gracioso que me encantou como nunca nada tinha feito.  Nem dei atenção ao que mais podia conter as demais caixas da herança, guardei comigo minha pequena e fui ao quarto para admira-la tal qual criança com o brinquedo em dia de natal.

Eu passava os dedos pela rosa entalhada nas laterais da caixinha, os sulcos eram bem feitos e a simetria estava perfeita. Não havia uma só rebarba ou erro naquelas gravuras. Na frente havia entalhada algo que pareciam chamas que cobriam-na por inteiro formando um belo desenho. Na tampa havia uma clave de sol em alto relevo com cor mais clara que o restante da peça.

As horas passaram e eu só me dei conta disso quando senti fome. Levantei-me da cama e fui até a porta, dei uma última olhada para a caixinha e… resolvi a levar comigo para a cozinha. Pousei a pequena na mesa enquanto preparava a comida. Subitamente assustei-me com uma música. A caixa, que até então estava fechada, abriu-se sem prévio aviso ou interferência externa e começou a tocar. Fiquei hipnotizado pela bailarina dançando, de tal forma que nem dei conta que o fogo havia levantado até o teto. Quando percebi o calor tomando conta da cozinha, as cortinas já haviam pegado fogo.

A fumaça começou a tomar conta do lugar enquanto eu fazia de tudo para apagar a labareda. Quando enfim consegui conter o princípio de incêndio, o único som vinha da caixa musical quebrando o silêncio assustador que se instaurara. Fechei-a com raiva. Eu sei que você deve estar pensando que estou louco, mas deixe-me continuar que no final me dará razão para as minhas premissas.

Resolvi tomar um banho, porém por precaução deixei a caixa na pia. Liguei o chuveiro e comecei a me livrar do cheiro de fumaça. A água esquentou e eu abaixei a temperatura pelo termostato. Não adiantou. A água já ardia sobre a pele quando saí do box, uma nuvem branca de vapor tomou conta do banheiro enquanto eu tateava em busca da chave de força, quando eu a encontrei desliguei o chuveiro cortando sua energia, porém a água continuava saindo quente. Juro que não estou mentindo! Naquele momento olhei de soslaio para a caixa pousada em cima da pia, ela estava aberta com a mulher de porcelana bailando de forma sarcástica.

Fiquei cego de raiva, fechei a caixa bruscamente e saí do banheiro em direção à janela. Defenestrei aquela maldição amadeirada o mais longe que consegui e ainda ouvi o barulho do choque contra o asfalto. Fechei a janela com força e nem me dei conta da paranoia que tomava conta de mim corroendo minha sanidade.

Tranquei todas as portas e janelas. Subi até meu quarto e girei a chave rápido. Guardei-a na gaveta da cômoda e depois tranquei-a também por precaução. A segunda chave dormiria comigo. Deitei na cama e demorei para pegar no sono.

Tive pesadelos estranhos envolvendo a caixa de música. Acordei sobressaltado com o calor que fazia no meu quarto. Minha casa estava em chamas! Eu ouvia o crepitar do fogo tomando conta da minha casa. Pulei rápido para a cômoda, mas esta irrompeu em súbitas chamas. A maldita estava tentando me matar. Uma labareda teimava em passar pelas frestas da porta e enfim alcançou o tapete. Uma coluna de fumaça preta começou a tomar conta de meu quarto e eu no desespero pulei pela janela encontrando-me com o chão gramado em um baque surdo.

Não sei se sonhei ou foi realidade, mas quando eu estava estirado, antes da ambulância chegar, eu vi a caixa de música na frente do meu rosto, aberta com a música tocando e aquela bailarina com uma face demoníaca a bailar.

Notas do autor

Caixinha de música foi publicado originalmente 19/03/2010 e foi alterado 20/09/2014. Originalmente no texto o personagem ao pegar a caixinha tenta se explicar com “Não que eu tenha tendências femininas ou qualquer coisa parecida”, essa frase acabou sendo retirada por colocar o personagem em uma situação de misoginia.

Profissão coveiro. Talento escritor

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Profissão coveiro. Talento escritor.

por Pedro Moreno

Decerto me acham estranho por escolher profissão tão inglória e rodeada por misticismo, mas sempre acreditei que a argumentação lógica e clara é a ferramenta mais poderosa que alguém possa usar em defesa de algo que se acredita, portanto lanço mão deste instrumento útil.

Sou um coveiro.

Em um primeiro momento, quando minha cabeça ainda balançava com tal decisão, fiquei um pouco desconcertado por ter chegado nesta sentença tão macabra, mas uma vez plantada tal semente, aos poucos enraizou-me de tal forma que podia sentir, na calada da noite, seus frutos nascendo. Era para mim a profissão ideal para se seguir.

Creio que deixo os senhores um tanto desconcertados com meu palavreado que parece sem propósito, então sigamos aos fatos que desencadearam tal reação.

Sou escritor. Dito isto pode até soar mais estranho, provável julgamento de que sou do tipo estranho, vestido de negro dos pés à cabeça, porém não passa nem perto da verdade. Sou um romancista e poeta. Tenho nas minhas linhas datilografadas as agruras de amores perdidos que nunca vivi e lugares bucólicos que nunca frequentei.

Sendo assim, tal serviço de zelador dos que já se foram tornou-se a escolha mais sábia de quem pretende um dia não ser mais um apostador, ganhando a vida com revisão, e por fim se tornar um autor. O trabalho é simples, sendo pesado apenas em dia de enterro, no qual se retira a terra à força com o uso da pá, mas isso é coisa que acontece apenas uma vez por mês nessa cidade, além do que se acostuma com tais ofícios que passam até a ajudar em meu desenvolvimento físico.

Como nunca fui de dormir muito, torno-me o melhor vigia que esses campos cercados já tiveram. A minha presença afasta qualquer aventureiro com más intenções nessas bandas, deixando os mortos com seus sossegos eternos e eu com minhas escritas infindáveis.

Quando trabalhava em escritório, muitas vezes me vi tendo tempo para mim apenas no momento que chegava em casa e ainda assim tinha que aprender a lidar com a estafa física e mental. Hoje consigo trabalhar sempre levando em meu bolso um caderno de notas, no qual escrevo todos os pensamentos do dia, para quando sentar na frente da máquina coloca-los para o grande baile das letras.

Aos poucos a história se forma, como uma valsa bem orquestrada, ritmada em sua própria elegância. Meu livro, a obra-prima de minha vida logo estará completo e um bom editor (ora bem feitor, ora ganancioso, de preferência os dois) abrirá os caminhos tortuosos de meu sucesso.

Porém nem toda história é fácil de se escrever.

Comecei meu trabalho empolgado, conseguia escrever de três a cinco páginas, teve um dia, glorioso esse, que fiz oito de um só fôlego, porém no outro dia me encontrava fraco com minhas obrigações, então tratei de me policiar quanto aos castigos que me impunha.

Escrever é um parto. Há sofrimento, lágrimas e sangue no nascer do rebento. Um duro aprendizado constante e lento.

Os capítulos se avolumavam sobre minha mesa e comecei a me indagar qual seria o futuro de Samanta e Lucas, os dois pombinhos apaixonados que vem seu amor sendo abruptamente interrompido por um pai austero.

Encharcado em minha própria história sigo o trabalho junto aos túmulos do cemitério até chegar na cripta da família Azevedo, uma construção de pedra com uma cruz encimada feita de ferro, na lateral pequenos quadros com fotos dos falecidos em uma árvore genealógica faltante, as duas últimas adições estão ali, Lucas Azevedo e Samanta Azevedo, pessoas que sequer conheci, mas cujos nomes e afeições fizeram com que virassem personagens de meu romance.

Lucas tem um semblante sério com um fino bigode a lhe adornar os lábios, seus olhos são penetrantes e, imagino eu, que deve ter sido a primeira coisa que chamou a atenção de Samanta, com seu cabelo arrumado em um belo coque no topo da cabeça com alguns fios pendendo sobre os ombros, emoldurando assim seu belo rosto alvo feito as nuvens de um verão que a natureza não ousa produzir.

Certa feita encontrei nesse mesmo mausoléu uma senhora que limpava a poeira descansada pelo chão e plantava flores vivas nos vasos, perguntei se era parente e me disse que Lucas e Samanta eram seus avós, que morreram juntos afogados em um rio enquanto faziam um passeio romântico em uma navio que naufragara, quando ouvi tal história não tinha dúvidas que eu seria responsável pela imortalidade do casal em forma de meus próprios personagens. Todos os dias então eu dedico algum tempo à minha musa inspiradora, tomando conta do descanso eterno dos dois.

E não foram os únicos.

O pai, Senhor Ademar, é um rico fazendeiro que mais tem apreço por animais do que gente, trata seus escravos à base do chicote que mantém sempre preso à cintura, cujo apelido deu de “Disciplina”. Também é um morador do cemitério, duas quadras para baixo do casal, a sepultura dele, simples e com grama sem aparar é a mais descuidada do lugar, não sou de dar luxo a quem não merece.

E assim continuo minha história, a cada enterro um personagem novo entra no livro. No velório eu fico sabendo as característica de cada um, é uma tia que fala sobre uma dívida, um primo que contava o quão bonachão era o morto e a mulher que afirma que homem igual não há. Aos poucos os novos personagens vão se encaixando na trama, como se tivessem sido criados para tal. É com a morte dos outros que meu livro ganha vida.

Então ela veio. Com seus longos cabelos negros terminados no meio das costas e olhos azuis cintilantes com brilho apenas comparável às estrelas. Seu nome era Dália e a certeza era que a flor não trazia justiça à beleza da moça. Chegou no primeiro dia para visitar o jazigo de seu pai, Sebastião, puxou conversa comigo e senti as pernas estremecerem enquanto falava. Poderia ser essa a voz dos próprios anjos?

Falou sobre a efemeridade da vida, e eu como poeta, acompanhei seu raciocínio digno das maiores mentes de nosso tempo, contei a ela sobre meu livro e a prometi que seu pai figuraria na minha história fazendo parte da trama em lugar de destaque.

Eu senti que crescia uma linda amizade entre nós. Porém a moça estava desejosa por algo mais, sentia em suas palavras que ela queria uma companhia que eu não podia dispor nesse momento tão delicado de minha carreira. A trama de meu romance seguia a passos largos e abandoná-lo agora era o mesmo crime cometido por uma mãe que entrega seu filho para o relento da noite fria, na frente de uma casa, esperando que alguém o adote.

Não sou esse tipo degenerado, tenho um compromisso fiel com meu livro e não o deixarei por frivolidades da alma humana.

Dália ainda retornava e sempre que investia recebia a costumeiras recusas. Até o dia que declarou seu amor, profundo e eterno por mim. Disse que a vida não valia a pena se não fosse ao meu lado, era como se fosse uma amante que tentava me tirar dos braços de minha cônjuge, o livro, para saciar sua própria lascividade.

Porém mal sabia Dália que suas atitudes se transformariam em mais uma personagem. Aos poucos a moça dos cabelo negros doou seus traços e personalidade para formar uma amante que seduziria incessantemente Lucas, tentando lhe arrancar dos braços da doce Samanta. Porém por mais que eu lia, algo não se encaixava, soava estranho e até um pouco torpe, mas a Dália do livro não tinha a mesma consistência, não tinha aquele frescor que mistura a ficção com realidade de tal forma que engana o leitor, que minhas outras personagens tinham.

Quando a noite surgiu, a lua seguia para seu palácio no alto do céu, Dália veio ter comigo mais uma conversa, falava sobre a dor que lhe crescia no peito, mas meus olhos só eram do meu livro, que crescia agora a passos lentos. Algo precisava ser feito, a personagem Dália precisaria parecer real. Enquanto caminhava pela cozinha, ouvia de longe o zumbido produzido pelas reclamações da Dália real, me deparei com uma faca longa pousada sobre a pia que reluziu meu sorriso.

Engana-se o leitor que achou que eu matei Dália, pelo contrário! Eu a imortalizei em meu romance, o que jaz dela é apenas um corpo sem graça ou sentido enterrado profundamente na terra de meu quintal com uma rosa por cima para marcar sua moradia final. Enquanto isso a Dália sedutora fatal segue verossímil nas minhas páginas, bailando cheia de vida.

Notas do autor

Profissão coveiro. Talento escritor começou a ser escrito no dia 15 de setembro de 2014 e acabou dia 18. É a segunda vez que escrevo algo sobre um coveiro, porém desta vez uma abordagem diferente sem ter um terror acentuado que é meu costume. Talvez seja uma influência de Edgar Allan Poe que tem sido meu autor de cabeceira este mês, porém sem a genialidade do mestre.

A Fotografia Maldita

amazing_old_photographs_640_04A Fotografia Maldita

por Pedro Moreno

Dentro do antiquário, envolto a objetos antigos e empoeirados se encontra Dorival. Seguiu os passos de seu pai e se tornou comerciante de antiguidades e mercador de histórias estranhas. A pequena loja existe há mais de 100 anos sem ter mudado muito sua estrutura, apenas alguns quadros dos mais novos familiares são colocados na parede.

Já escuro e perto de fechar se encontra em frente a um desses quadros um homem na casa dos 30 anos, com cabelos compridos e negros unidos em uma trança. Sua pele é azeitonada e seus traços são retos e másculos valorizados por seu terno de corte clássico.

– Pois não? – diz o dono do Antiquário.

– Quanto está o quadro? – Indaga o homem com uma voz grave sem nem olhar para o proprietário do estabelecimento.

– Não está à venda senhor…

– César Hiddoni – interrompe o homem, desta vez olhando para Dorival. Os olhos eram de cinzas e profundos e quando fitaram o comerciante este estremeceu e ficou como se tivesse sob hipnose. Percebendo tal fato Hiddoni desviou o olhar e colocou a mão dentro do paletó puxando uma carteira. De dentro dela entregou um cheque em branco, assinou e entregou ao comerciante.

– Decida o seu preço;

Dorival olhou para o quadro e conferiu a foto. Era a primeira fotografia tirada de sua família assim que chegou de Portugal. Estava seus avós paternos e no colo deles o seu pai. A cena era de um jantar e vários daqueles rostos ele não sabia quem eram, mas pareciam felizes em frente a uma casa com a mesa posta no jardim. Ao ver a foto o comerciante sentiu saudosismo e o peso de uma tradição.

– Desculpe – Disse Dorival entregando o cheque – Não está a venda.

E então voltou para trás do balcão e continuou a ler seu jornal. César ainda olhou por um tempo a fotografia e saiu. O comerciante olhou para o relógio em seu pulso e concluiu estava na hora de fechar. Tudo perfeitamente trancado e conferido, foi para a sua casa torcendo por uma sopa quente nesta noite fria.

No outro dia pela manhã, Dorival, chegou na loja e descobriu que a porta estava destrancada, ficou aflito e percorreu os corredores para ver o que havia sido roubado e constatou que nada havia sido furtado de seu comércio. Inclusive o dinheiro que havia ficado no caixa estava intacto. Então pensou no quadro. Quando chegou ele estava no mesmo lugar. Sem entender sentou em sua cadeira e pôs-se a ler o jornal.

Enquanto estava absorvido na leitura passou-lhe uma coisa pela sua cabeça. A foto estava diferente. O comerciante levantou e caminhou até a foto. Ao olhar para o retrato reparou que faltava uma pessoa na foto. Não acreditava no que via. Então algo chamou-lhe a atenção, no canto da casa há um latão e em sua boca um par de pernas indicando uma pessoa de ponta cabeça. Na base do latão há um furo de onde escorre um líquido espesso.

Dorival sentiu um medo crescente e seu coração palpitou a ponto de fazer latejar seus dedos. O terror tomou conta do seu ser. Ele pegou a fotografia e a trancou em uma das gavetas de sua mesa pensando que só podia ser alucinação devido ao nervosismo que passou na noite anterior.

Antes de ir embora verificou três vezes se a porta estava bem trancada e arrastou móveis em frente de todas as janelas. Ao dormir teve pesadelos terríveis, mas nem consegue se lembra quando acorda. Antes de sair se olha no espelho e verifica que suas olheiras estão enormes por causa da noite mal dormida.

Mais uma vez sai para trabalhar e quando chega mais uma vez a porta está destrancada. Os pelos de seu braço se arrepiam e ele sente um suor gelado sair de sua nuca e escorrer pelas costas. Com a circulação sanguínea disparada ele encontra a gaveta de sua mesa escancarada e dentro dela a maldita foto.

Ao olhar para foto ele percebe que está faltando mais duas pessoas. Com a ansiedade lhe corroendo o estômago, Dorival percorre a foto com os olhos e encontra bem ao fundo da paisagem, em uma árvore um corpo suspenso pelo pescoço em uma corda. O outro desaparecido está dentro da casa e mal consegue-se enxerga-lo pela janela. Ele está pegando fogo em frente ao fogão.

O café da manhã ameaça a voltar e o comerciante deixa cair a foto quando corre para o banheiro. Ajoelhado em frente à louça ele pensa no que fazer. Enterra-la parece a melhor opção.

Munido de uma pá, Dorival avança até o quintal e em poucos minutos soterra o retrato temendo pelo pior. O suor escorre de sua testa e ondas de calor tomam conta de seu corpo forçando-o a sentar no chão até se sentir melhor.

Ainda mal o comerciante se viu na obrigação de levantar. Fechou a loja mais cedo e foi até sua casa arrastando o pé. Seus vizinhos que o viram perguntaram se tudo estava bem e não conseguiram uma resposta boa o suficiente. Chegou em casa e foi dormir.

Acordou no meio da noite suando e tremendo. O sono não queria voltar. Ficou horas rolando de um lado para o outro da cama e não conseguia pregar os olhos. Assim permaneceu até quando o sol deu a graça de seus primeiros raios, ele levantou, vestiu-se e foi trabalhar.

Chegou e conferiu que o buraco estava intacto. Do jeito que ficara na noite anterior. Suspirou aliviado, mas não por muito tempo. Ao tentar abrir a porta viu que estava aberta e para a sua surpresa o retrato se encontrava pendurado na parede. Ele tentou não olhar, mas a curiosidade era maior. Seus avós tinham sumido e só sobrara seu pai sentado na cadeira com cara de choro. No canto esquerdo da fotografia dava para ver uma cabeça sem o tronco parada em uma poça de sangue, quando aproximou o olhar percebeu ser sua avó.

No mesmo minuto Dorival desfaleceu e caiu no chão duro do antiquário, quando veio a acordar já estava escuro e a foto se encontrava em seu colo. Ao olhar encontrou o avô debaixo da mesa com o ventre aberto e suas víceras expostas. Aquilo era demais.

Pegou a fotografia e saiu deixando a loja aberta à procura de alguma ajuda, se é que alguém pudesse ajuda-lo. Chorando feito criança, o comerciante não pode ver uma pedra no meio do caminho e caiu batendo a cabeça contra a cerca de uma casa fazendo o retrato voar longe. Se ergueu com dificuldade e pegou a foto com as duas mãos.

Mal pode acreditar no que via.

A fotografia parecia viva. A pessoa dentro casa pegava fogo e o enforcado balançava contra o vento enquanto o seu pai parecia berrar de medo. Então ele veio. Um homem de cabelos compridos e terno de linhas retas apareceu de dentro da casa com uma faca. Avançou até o bebê e o segurou pelo pescoço. Era César Hiddoni.

Com um sorriso malévolo encostou a faca no pescoço da criança. Dorival não mais podia suportar e viu uma luz forte descendo a avenida na qual estava.

O caminhoneiro nem teve tempo de reagir.

Meses depois o filho de Dorival reabriu o antiquário. Estava estudando, mas abandonou a faculdade para continuar o negócio do pai. Quando certo dia já era praticamente hora de fechar entrou um senhor na loja, de cabelos negros amarrados em uma trança. De terno bem cortado e olhos cinzentos e pôs-se a olhar as fotografias na parede.

– Pois não? – diz o filho.

– Quanto está o quadro? – Indaga o homem com uma voz grave sem nem olhar no rosto do rapaz.

Ele olha o quadro e é o mesmo que fora encontrado na mão de seu pai, a única parte não atingida do corpo. Retratava seus bisavôs mais alguns rostos que ele não conseguia identificar, além do seu avô, ainda bebê, sentado no colo de sua bisavó.

– É de família…- Ele fala e pensa por um minuto – Faço por trinta.

O senhor assina um cheque e entrega ao rapaz que agradece. Ele se sente mal por ter vendido tal quadro e pelo olhar do sujeito. Mas acreditou que fez um bom negócio.

Notas do autor

A Fotografia Maldita foi publicado originalmente em 18/09/2009, se tornou meu primeiro texto que despertou curiosidade e elogios por parte dos leitores. O conto tem essa atmosfera que o faz parecer ter saído da série Além da Imaginação, que eu via quando pequeno. A ideia do conto veio depois de ver uma foto antiga de minha família em frente em sentados à mesa de jantar posta do lado de fora da casa.