Eleições chegando

Nesse domingo nós iremos às urnas para votar e aqui seguem alguns conselhos.

Primeiro e mais importante, desconfie de conselhos, inclusive estes aqui. Saiba que todo texto, vídeo ou foto tem algum propósito e geralmente é de te fazer mudar sua posição, ou reforçar alguma que você já tenha. Reflita sobre tudo o que lê, mas apenas mude se fizer sentido para você e suas próprias convicções. De que adianta viver o pensamento alheio? Crie os seus próprios! Abandone todos os conceitos prontos que você tem e viva a novidade, o frescor de novas ideias lhe fará bem. Olhar sobre outras perspectivas o lhe tornará mais afiado e quanto melhor funcionar sua mente, melhores decisões tomará.

Pense no Brasil como uma empresa, cujo dono é você. Votar em um candidato é o mesmo que contratar alguém que lhe representará. Quais qualidade você busca em um funcionário? São as mesmas que você busca em seu político?

Entenda que todos os candidatos terão defeitos. Eles são humanos e erram, tem vícios e deficiências. Você não escolherá a pessoa perfeita, pois esta não existe. A escolha será daquele cujos defeitos você crê que não atrapalharão na vida pública. Fuja de defeitos morais, são esses que acabarão por definir o posicionamento dele sobre temas controversos.

Está pensando em votar alguém que já teve algum cargo público? Pesquise seus feitos e decisões no antigo mandato. Ninguém muda de opinião do dia para noite, provavelmente ele continuará com os mesmos acertos e erros.

Saiba separar o que é o candidato e o que é o partido, porém tenha em mente que as decisões do candidato pouco se distanciam do partido, tal qual o fruto da árvore que nunca cai longe do pé.

Esqueça pesquisas. Alterando datas e amostragens é possível colocar qualquer dado que se precise. Vote em quem você acredita, não pense no voto utilitário.

Entenda a diferença entre voto branco, nulo e na legenda. O voto em branco será preenchido para quem estiver ganhando, o nulo é inválido e você deixará de escolher deixando que os outros o façam por você e a legenda, para cargos de deputados e senador, é um voto para que o partido escolha o candidato.

Converse com seus amigos. Pergunte quais critérios utilizaram para a escolha. Extraia o melhor pensamento de cada um para conseguir fazer o seu.

Não pense como se fizesse parte de uma guilda. Não limite suas escolhas sobre algum grupo que você acredite que faça parte. Não vote no cômico, no descolado e no famoso. Vote em pessoas, não em cargos. Vote no candidato que tenha propostas, não em quem você conhece da televisão, rádio ou internet.

Não retroceda a nossa já frágil política. Espelhe-se nas conquistas de países desenvolvidos e pense nessas mesmas mudanças para o Brasil. Devemos retroceder nosso pensamento para algo inaceitável?

Não acredite que você é o padrão. Há muitos outras pessoas ao redor e nenhuma delas deve ser o padrão também. O candidato deve governar para o país inteiro, não só para você ou um grupo específico. Quem não sabe conviver com diferenças, tampouco deveria ser eleito. Deixe de pensar no microcosmo e pense no macro. Quanto maior o cargo, mais abrangentes tem de ser as propostas.

Acredite no arrependimento sim, mas tome cuidado com a reincidência. O candidato foi considerado culpado e continua a fazer política como se não tivesse, não é alguém confiável.

Por fim, façamos o melhor agora, pois amanhã, depois dos votos computados e os candidatos eleitos, pode ser tarde demais.

Boa sorte para todos nós.

Masmorra do Pedro Show # 1

Gravei cinco vezes, deletei um monte de vídeos, picotei horrores e o resultado você vê agora:

Baquelite, antimônio e borracha

Vamos nos lembrar daquelas aulas do Ensino Fundamental no qual se aprendia sobre as Figuras de Linguagem, recursos utilizados por quem fala, ou escreve, para dar mais força, colorido, beleza e intensidade ao texto.

Falando assim parece bem bonito!

Porém sofro de um problema, deveras sério, com a Metonímia, conhecida por sua arte de usar uma palavra por outra, mesmo sabendo que esta não é sinônimo, apenas relacionada. Em especifico o que me tira o sono é a matéria pelo objeto.

Não sou nenhum pouco contra esse tipo de figura de linguagem, acho bonito, estiloso e uso, como qualquer cidadão. Porém no trabalho, sobre “a fria letra da lei”, esse tipo de estilismo fica um pouco deturpado e só atrapalha a comunicação, no final todas as peças que vendo viram baquelite, antimônio e borracha.

Nada mais comum que o cliente encostar no balcão e pedir a borracha de sua máquina de lavar. Muitas vezes até mecânicos utilizam esse recurso quando desconhecem o nome correto de uma peça. Mas pensemos bem sobre o assunto: Borracha é um material, e não a peça. Imagine um sistema de utiliza água, caso das máquinas de lavar, quantas peças de borracha você imagina que tem?

Gosto de exemplos.  De cabeça, sem consultar o manual, vou discriminar as peças de uma Brastemp Convencional (modelo Super Luxo)  que são feitas de borracha ou levam tal material na composição:

  • Correia
  • Guarnição do Tanque
  • Retentor Interno do Tubo
  • Retentor Tanque (carinhosamente chamado de CB: Cu de Burro)
  • Mangueira Saída “Pescoço”
  • Mangueira Saída “Bengala”
  • Mangueira Tanque Base
  • Mangueira Válvula Filtro
  • Mangueira Pressostato
  • Mangueira Saída de Água
  • Mangueira Entrada de Água
  • Vedador Interno Tubo
  • Vedador Mangueira Entrada
  • Vedador Coluna Base
  • Vedador Eixo Agitador
  • Vedador Interno Tubo
  • Vedador interno Coluna
  • Vedador Parafuso Tanque
  • Vedador Eixo Interruptor

Isso é o que me lembrei de cabeça, pois deve ter mais. Agora imagine a situação de alguém que me pede “a borracha da máquina”. Só de mangueiras são sete tipos diferentes, vedadores são mais de dez! Explicar também é um desafio, como você diz qual o ponto de partida e chegada de uma mangueira se nem ao menos conhece o nome das peças?

Mas ao menos borracha é o material correto, o que dizer do baquelite e o antimônio?

Baquelite é uma resina sintética que muito se assemelha ao plástico, sendo o primeiro substituto de sua categoria, usado muito em peças que recebem muito calor ou eletricidade. Porém o termo é utilizado para descrever QUALQUER peça de plástico, isso mesmo, mesmo que o baquelite nem de longe seja plástico!

O antimônio é outra “peça” interessante. De tanto falarem sobre o antimônio tive que pesquisar para descobrir que é um semi-metal de coloração branco azulada, em sua forma estável, muito utilizado em baterias e revestimentos de cabos. Descobri então que nenhuma peça classificada como antimônio leva em sua composição tal metaloide, mesmo assim todas as ligas de alumínio são chamadas de antimônio por alguns clientes. Que ficam deveras irritados caso você não saiba do que estão falando.

Mas nem tudo está perdido. Alguns ainda pedem o nome correto da peça, e quando não sabem seguram o objeto diante de seus olhos e repetem em voz alta, facilitando a vida dele, quando for comprar novamente, e a minha, que mantenho na cabeça os poucos fios de cabelo que me restam.

Medos e Lendas

Medos e Lendas

por Pedro Moreno

Medo…

Uma sensação tão humana que quando eu comecei a sentir até achei estranho e deslocado tal manifestação corpórea. Há lendas sobre vampiros que por uma vez o coração bateu e eles voltaram a serem humanos de novo por alguns míseros segundos antes de definhar até a abençoada morte final.

Mas lendas são lendas…

Me lembro quando era pequeno e me enchia de livros sobre seres fantásticos, livros esses que faziam um sucesso enorme na época, quando grandes trovadores empunhavam sua pena como um soldado seu fuzil. E o maior dos bardos alcançava seu reconhecimento tão póstumo.

Era uma época na qual eu não sentia medo…

Os galhos das árvores castigam meu rosto pálido que contrasta com a escuridão densa da mata. Posso dizer que sou uma criatura noturna e urbana. Um verdadeiro cosmopolita, logo a maldita floresta na qual me encontro só atrapalha a minha fuga, volta meia consigo sentir o cheiro da meu predador se aproximando. Um odor forte de lobo misturado com morte.

Conheci a morte pela primeira vez há muito tempo em uma biblioteca. Tive a brilhante idéia de me esconder do funcionário e ficar lendo depois que o prédio fechasse. As duas primeiras horas foram ótimas. Depois disso ouvi um barulho de pés se arrastando.

Achando que fosse algum vigia noturno me escondi embaixo de uma grande prateleira que estava vazia e esperei.

Uma figura grotesca e esfarrapada entrou no salão carregando uma pequena pilha de livros volumosos. Ficou lá por horas a fio virando e revirando tomos velhos e esgarçados.

Medo…

Um grande desfiladeiro se aproxima, mortais não viriam tal peça da natureza e com certeza encontrariam a morte certa. Mas como ser pretensiosamente superior pude enxergar mesmo no breu noturno a armadilha e pulei a tempo em um galho roto de uma árvore. Rezei.

Depois de um silêncio mortal a voz da criatura irrompe na biblioteca e ecoa por sobre os livros, “Eu já ti vi…” Senti meu coração batendo tão forte que era palpável na garganta, como se tentasse pular para fora do meu corpo. Em menos de um segundo ele estava em pé na minha frente com seus olhos amarelos me fitando. Desacordei.

De cima da árvore esperei meu predador passar reto por mim e ele passou. Como um trovão negro ele deslizou ribanceira abaixo e se embrenhou na mata. Apesar de não respirar soltei o ar dos pulmões como se pudesse obter algum alívio maior depois disso. Um uivo cortou a noite de ponta a ponta e os cabelos da minha nuca se arrepiaram involuntariamente, por um momento eu descansei meu corpo morto em cima da árvore.

Devo ter apagado por algumas horas ou minutos, nem sei por quanto tempo fiquei em cima da árvore quando abri os olhos vi meu predador voltando. Seu corpo peludo em nada devia às antigas lendas de lobisomem que ouvia de minha avó. Corpulento e negro como a noite, ele passava pela floresta sem fazer qualquer barulho e é bem provável que se eu não tivesse aberto os olhos me mataria sem eu perceber. Um lobisomem , igual os das lendas me seguia.

Mas lendas são lendas…

Há uma semana atrás eu descobrira por acaso seu covil e desde então o desgraçado me rastreia e parece que não adianta fugir de sua ira. Tentei várias formas de matá-lo, como os livros de lendas descreviam, com balas de pratas e demais traquitanas que só o faziam urrar de dor e continuar a perseguir-me cade vez mais feroz. Por sorte consegui sempre lugares seguros para dormir quando o sol amaldiçoa os amaldiçoados, mas toda noite o desgraçado consegue me achar e continua no meu encalço.

Ouço a respiração pesada de meu predador que caminha em direção a  árvore, com os olhos baixos como se tentasse achar uma pegada ou algo parecido. Então o lobo homem passa bem por debaixo do galho em que me situo, no entanto, não vejo sua enorme sombra passar do outro lado. Penso que talvez ele tenha ficado embaixo da árvore pois encontrara uma pegada minha.

Por três longos segundos não vejo e não ouço nada. E então de súbito sou jogado com violência no chão e empalado com o próprio galho no qual repousava. A dor invadiu meu corpo inteiro e então fui imobilizado. Meu raptor me olhou nos olhos e sorriu…

Este é o terceiro mês no qual sou prisioneiro desta gangue de lobisomens e todos os dias eles me fazem perguntas sobre os outros vampiros e suas localizações. Ou conto e encontro a morte pelas mãos de meus iguais ou me calo e encontro a morte pelas mãos deles.

Era uma época na qual eu não sentia medo…

Notas do autor.

Publicado originalmente em 14/08/2009 e revisado em 24/09/2014, o conto Medos e Lendas é baseado no clássico embate entre vampiros e lobisomens, muito explorado pela mídia. Eu nunca gostei desse conto, hoje escreveria totalmente diferente.

Olha lá o homem!

A cena começa em um supermercado, daqueles comuns por aí com uma fileira de quarenta caixas e apenas cinco com um operador, sendo que dois deles estão esperando alguém lhes trazer troco.

Na morosidade pantanosa do lugar, as filas começam a aumentar com toda sorte de consumidores desde o pãozinho para o café da tarde, quanto ao carrinho cheio da compra do mês. E nessa situação, ali incrustado nem no final, nem no começo da fila, estou eu. Filho legítimo da sociedade capitalista, consumidor ativo e triunfante com um saco de pão e uma bandeja de frios. Obstinado a cumprir minha missão pouco honrosa de abastecer minha mesa com alimento e girar a roda da economia. Enquanto você vê um sujeito comum com um saco de pão, por trás está um dos maiores incentivadores do mercado de capitais. Juro para você!

Mas a fila continua chata e longa. Ficar esperando sua vez faz com que sua mente voe além da imaginação comum, quando percebo, me vejo como um cavaleiro de capa e espada, cavalgando minha montaria em um campo aberto quanto ao longe um enorme monstro se agiganta no horizonte, pronto para ser abatido por mim.

Então sou chamado de volta à realidade.

À minha frente uma criança chora, aquele choro pouco doído, que não produz lágrimas apenas desejos. Conhecido popularmente como “manha”. Produzido por seres humanos ainda em idade infantil quando desejam aqueles brinquedos que vem com balas dentro, estranhamente dispostos à altura de seus olhos nas gôndolas que cercam os caixas.

A mãe, impassível, primeiro tenta a tática do “não estou vendo”. Olha para algum ponto fixo no meio do supermercado. Mas não adiantou, a criança chorava enquanto puxava a sua camiseta, então ela se virou bruscamente, procurou algo que não pude entender de imediato, apontou para mim e disse:

– Olha lá o homem! Se não se comportar ele vai brigar com você!

Lembro de ter arregalado o olho de imediato. Conferi se não tinha saído de casa, por engano, com alguma camiseta que remetia à alguma gangue criminosa ou coisa parecida, mas não era o caso, eu parecia um cidadão comum.

Entre minhas compras nenhum objeto que poderia ser atribuído à algum criminoso. Talvez ao invés de pegar a mussarela eu possa ter me confundido e estar agora portando um machado. Vai saber.

O menino olhou para mim, ele com no máximo um metro de altura e eu com meus 1,83. Parou na hora e eu me senti o pior dos homens, um verdadeiro pária da sociedade, um espreitador das sombras em busca da carne infante para me alimentar. Na outra hora eu era o cavaleiro de armadura reluzente e agora sou o monstro que assusta crianças manhosas.

Logo eu tão pacífico. Nunca entrei em briga, tenho medo de armas e escolhi a profissão de professor! Poderia alguém ser mais gente boa que eu?

A fila aos poucos se dissipou e fui atendido. A criança ainda me lançou um último olhar antes de ser puxada pela mãe, olhos inocentes que diziam “Por favor moço, não me mate”, eu apenas abaixei a cabeça com vergonha de ser um monstro.

Obelisco

Obelisco

por Pedro Moreno

Em uma noite negra com ares amaldiçoados, eu estava em uma taverna pouco auspiciosa esperando talvez por uma morte calma induzida por alguma mistura de Gim com qualquer outro veneno. A porta de madeira range revelando uma figura manca de vestes puídas e olhos saltados, logo senta ao balcão e pede algum líquido de aparência incerta.

Reparo em suas vestes tão típicas que só faltava ter uma placa em sua testa escrito “Marinheiro”. A barba grisalha áspera molhava-se em sua bebida enquanto a garganta era limpa e seu fígado deteriorado. O homem do mar toma mais dois copos e começa a socar o fumo em seu cachimbo, ao terminar procura por algum fósforo em seus bolsos e como não encontra resolvo empresta-lo um e puxar assunto.

O lobo do mar se chama Arthur, começou a navegar ainda cedo aprendendo a profissão com o pai que servira à coroa inglesa. Hoje ele trabalha em rotas comerciais trazendo produtos da Índia e outros países exóticos. Temperos raros, tecidos caros e outras bugigangas se amontoam no porão de seu velho navio A Pérola do Oceano.

Pelo que dizia havia a pouco chegado de viagem e aportado por essas bandas a procura de tripulação para seu navio. Fiquei curioso do porque era necessário tantas pessoas para um navio mercante, logo ele me explicou que sua última viagem custara a vida de muitos de seus homens graças a uma febre marinha que não encontrou a cura.

Como a oferta de emprego era pouca e há meses eu não sabia que era carne em meu prato, decidi embarcar no Pérola rumo à exótica Índia. Arrumei meus poucos pertences em apenas um baú e pela manhã já esperava no porto pela chegada de Arthur. Com a chegada de todos os marinheiros, acomodamos nossa tralha no porão ao lado dos baús de dobrões usados para comprar a mercadoria. Quando o crepúsculo chegou o navio já singrava pelas águas calmas do porto em direção ao velho mar. Conforme avançamos em direção ao oceano o mar já perdia sua paciência conosco e algumas ondas podiam ser vistas. Minha primeira noite em um navio se mostrou em um desastre, mal consegui pregar o olho por causa dos estalos da madeira e o chacoalhar da embarcação, um mero boneco na mão de Poseidon.

Conforme os dias passavam aprendi a fazer os mais diversos nós de ofício, além de outras habilidades exigidas de um marinheiro que eu aos poucos eu me tornara. Os jargões do mar me fascinaram e provavelmente mereceriam um estudo apropriado por algum bom pesquisador. No décimo dia de viagem a luneta no alto do ninho do corvo avistou algo parecido com um farol o que indicaria uma ilha que não constava no nosso mapa. Pela nossa velocidade alcançaríamos o lugar apenas na aurora do outro dia.

A noite trouxe seu negrume encobrindo tudo que não fosse um palmo a frente do nariz. Uma brisa passou por nós trazendo o cheiro de uma tempestade que se aproximava. Quando a lua já ia alta no céu os relâmpagos começaram a cortar a noite iluminando nosso farol. Os marujos estavam preocupados com o fato deste não estar aceso indicando a ilha, trazendo o enorme risco de nosso navio entrar em alguma praia.

A tempestade começou a apertar fazendo nossa embarcação dançar ao ritmo do oceano, era impossível conseguir ficar de pé forçando-me a segurar-me com todas as forças em um dos mastros. Assim ficou por toda a noite e apenas de manhã se acalmou, porém uma neblina forte impedia de nós enxergamos algo além do navio, deixando-nos navegar no escuro.

Estranhamente a neblina ficou para trás nos revelando algo que nos gelou a espinha. Não era um farol o que víamos e fim um obelisco de cor púrpura enterrado no oceano em qualquer terra a vista para lhe segurar. Era feito de pedra e tinha uma cor que eu jamais vira em qualquer lugar e nem imaginava que era possível existir nesse planeta, seu tamanho era maior que qualquer torre de Londres e em seu corpo um conjunto de arranhões formavam um desenho geométrico interessante.

Os homens pareciam assustados com as possibilidades, afinal não a humanidade não tem tecnologia o suficiente para colocar um obelisco deste tamanho em pleno mar aberto sem nada a lhe escorar. Arthur tomou coragem e segui pela proa até chegar bem perto do objeto, com os dedos trêmulos tocou a superfície púrpura.

O que seguiu deixaria os mais corajosos homens tremendo de medo. Um som parecido com uma corneta, porém em uma potência avassaladora, ecoou do obelisco deixando-nos surdos por alguns minutos, o som fora tão forte que até as velas tremeram e algumas ondas pequenas se levantaram da base do monumento. Quando os homens recobraram sua audição tudo continuava no mais terrível silêncio, um filete rubro desceu pelo ouvido de Arthur que continuou paralisado de medo. Tentei tirar nosso capitão do seu estado catatônico mas ele parecia não conseguir ouvir mais nada. Enquanto eu assistia socorro, ouvi um borbulhar de água perto do casco, pendurei-me na murada e vi que o imenso obelisco agora vibrava fazendo a água ao seu redor se movimentar.

Alguns marujos começaram a rezar temendo pelo pior. As ranhuras do obelisco se iluminaram com uma cor dourada como se o monumento abrigasse um sol em seu interior. Com temor que fosse tarde demais acordei os marujos de seus transes e distribuí ordens para içarem velas e virarem o timão para o outro lado, um vento salvador vindo do noroeste impulsionou nosso barco em direção contrária ao monolito de pedra.

Enquanto nos distanciávamos senti um alívio não descritível, nossos olhos ainda acompanhavam o horizonte na direção do obelisco como se este fosse capaz de se desprender do oceano e perseguir-nos. Quando a distância era grande subi no ninho do corvo e com a luneta na mão pude enxergar o obelisco.

O terror tomou conta de mim.

Na superfície do monolito, que outrora estava apenas com as ranhuras, estava coberto por um sem número de tentáculos e em seu topo uma criatura de cor ocre parecida ter vinda do inferno. Seu corpo coberto por escamas exalava uma fumaça esverdeada, do alto de sua grotesca cabeça um par de chifres espiralados iguais a de um carneiro. O monstro abriu sua bocarra em um ângulo obsceno mostrando alguns milhares de dentes pontiagudos, do fundo de sua garganta o som poderoso igual ao de uma corneta ecoa novamente acabando com a coragem dos mais determinados marujos.

Por mais que eu quisesse, não conseguia desgrudar meus olhos da luneta, só parei de observal tal criatura quando esta desapareceu de meu campo de visão. Navegamos por mais alguns dias e alcançamos a inglaterra novamente. O capitão, que delirou a viagem inteira, foi internado no hospital, porém acabou transferido para um manicômio. Fiquei sabendo que ele arrancara seus olhos com as mãos e desenhara uma cópia fiel do monolito na parede do quarto.

Na mesma taverna onde outrora eu conhecera Arthur, o Gim tornou minha única companhia por muitos anos até eu ficar de cama e não mais conseguir ir à tal espelunca. Todas as noites que passei sóbrio desde o ocorrido, quando fecho meus olhos consigo ver com clareza o obelisco e seu som aterrorizador ainda ecoa em minha cabeça.

Notas do autor

Publicado originalmente em 30/11/2010, Obelisco tem um ar lovecraftiano em todos os detalhes, desde o uso do mar, a criatura estranha e a insanidade.

Caixinha de música

Caixinha de Música

por Pedro Moreno

Toda a minha maldição veio na forma de uma simples caixinha de música. Eu sei que você ouve minhas palavras e mal consegue acreditar que um objeto tão simples tenha sido causador de tamanhas desgraças que ocorreram na minha vida. Espere! Não vá embora agora, fique e ouça o relato de um desesperado.

Tudo começou com a morte de minha tia-avó. Nenhum dos herdeiros se prontificou a ficar com a herança, um monte de quinquilharias de mau-gosto e sem um útil aproveitamento. Você sabe que eu não ando bem abonado ultimamente, então decidi retirar as coisas daquele imóvel alugado e vasculhar por algo interessante ou que tivesse um valor no mercado.

O senhorio da casa já havia empacotado as tralhas em quatro caixas de papelão, ainda dei uma olhada nos móveis, mas estes serviriam apenas de lenha para fogueira. O jeito era eu me contentar com que ganhei. Levei com dificuldade as caixas pelo caminho sinuoso, não criei falsas esperanças quanto ao que havia dentro delas, porém não custava tentar.

Chegando em casa abri todas e espalhei o conteúdo pelo chão. Nesse momento comecei a pensar no que levava uma pessoa a juntar tanta porcaria. Eram jornais velhos, cadernos sem páginas, pratos trincados… Definitivamente nada que pudesse ter algum valor.

Enquanto eu chafurdava, senti algo pesado enrolado em uma folha de jornal. Abri o embrulho e encontrei uma caixinha de música. Feita de madeira escura, ao abrir se levanta uma pequena bailarina feita de porcelana que começa a bailar sob a música cadenciada.

Fiquei um tempo sentado no chão apreciando o lindo objeto. Não que alguma vez eu já tenha me enamorado por este tipo de bibelô, porém era tão gracioso que me encantou como nunca nada tinha feito.  Nem dei atenção ao que mais podia conter as demais caixas da herança, guardei comigo minha pequena e fui ao quarto para admira-la tal qual criança com o brinquedo em dia de natal.

Eu passava os dedos pela rosa entalhada nas laterais da caixinha, os sulcos eram bem feitos e a simetria estava perfeita. Não havia uma só rebarba ou erro naquelas gravuras. Na frente havia entalhada algo que pareciam chamas que cobriam-na por inteiro formando um belo desenho. Na tampa havia uma clave de sol em alto relevo com cor mais clara que o restante da peça.

As horas passaram e eu só me dei conta disso quando senti fome. Levantei-me da cama e fui até a porta, dei uma última olhada para a caixinha e… resolvi a levar comigo para a cozinha. Pousei a pequena na mesa enquanto preparava a comida. Subitamente assustei-me com uma música. A caixa, que até então estava fechada, abriu-se sem prévio aviso ou interferência externa e começou a tocar. Fiquei hipnotizado pela bailarina dançando, de tal forma que nem dei conta que o fogo havia levantado até o teto. Quando percebi o calor tomando conta da cozinha, as cortinas já haviam pegado fogo.

A fumaça começou a tomar conta do lugar enquanto eu fazia de tudo para apagar a labareda. Quando enfim consegui conter o princípio de incêndio, o único som vinha da caixa musical quebrando o silêncio assustador que se instaurara. Fechei-a com raiva. Eu sei que você deve estar pensando que estou louco, mas deixe-me continuar que no final me dará razão para as minhas premissas.

Resolvi tomar um banho, porém por precaução deixei a caixa na pia. Liguei o chuveiro e comecei a me livrar do cheiro de fumaça. A água esquentou e eu abaixei a temperatura pelo termostato. Não adiantou. A água já ardia sobre a pele quando saí do box, uma nuvem branca de vapor tomou conta do banheiro enquanto eu tateava em busca da chave de força, quando eu a encontrei desliguei o chuveiro cortando sua energia, porém a água continuava saindo quente. Juro que não estou mentindo! Naquele momento olhei de soslaio para a caixa pousada em cima da pia, ela estava aberta com a mulher de porcelana bailando de forma sarcástica.

Fiquei cego de raiva, fechei a caixa bruscamente e saí do banheiro em direção à janela. Defenestrei aquela maldição amadeirada o mais longe que consegui e ainda ouvi o barulho do choque contra o asfalto. Fechei a janela com força e nem me dei conta da paranoia que tomava conta de mim corroendo minha sanidade.

Tranquei todas as portas e janelas. Subi até meu quarto e girei a chave rápido. Guardei-a na gaveta da cômoda e depois tranquei-a também por precaução. A segunda chave dormiria comigo. Deitei na cama e demorei para pegar no sono.

Tive pesadelos estranhos envolvendo a caixa de música. Acordei sobressaltado com o calor que fazia no meu quarto. Minha casa estava em chamas! Eu ouvia o crepitar do fogo tomando conta da minha casa. Pulei rápido para a cômoda, mas esta irrompeu em súbitas chamas. A maldita estava tentando me matar. Uma labareda teimava em passar pelas frestas da porta e enfim alcançou o tapete. Uma coluna de fumaça preta começou a tomar conta de meu quarto e eu no desespero pulei pela janela encontrando-me com o chão gramado em um baque surdo.

Não sei se sonhei ou foi realidade, mas quando eu estava estirado, antes da ambulância chegar, eu vi a caixa de música na frente do meu rosto, aberta com a música tocando e aquela bailarina com uma face demoníaca a bailar.

Notas do autor

Caixinha de música foi publicado originalmente 19/03/2010 e foi alterado 20/09/2014. Originalmente no texto o personagem ao pegar a caixinha tenta se explicar com “Não que eu tenha tendências femininas ou qualquer coisa parecida”, essa frase acabou sendo retirada por colocar o personagem em uma situação de misoginia.