Eu te entendo

Algumas vezes tenho alguns clientes com uma boa empatia que são capazes, como diz a qualidade, de capturar meus sentimentos.

Hoje estava atendendo uma moça que queria falar com minha mãe, eu pedi para que aguardasse enquanto ela chegasse. Enquanto isso veio uma senhora para pedir uma peça e reproduzo o diálogo

– Eu queria uma pecinha do meu fogão.

– Que peça seria.

– É uma pecinha que fica atrás, você coloca ela na mangueira assim (fazendo gestos com a mão)

– Não vou ter essa peça.

– Mas você sabe do que estou falando?

– Creio que não senhora, porém tenho pouquíssima coisa de fogão. Nós trabalhamos mais com máquina e geladeira e entre as peças que tenho, nenhuma se encaixa na descrição.

– Você não tem fogão em casa? (Em tom irritado)

– (Respiro) Tenho, mas no meu é um cano direto onde vai a mangueira.

Percebendo que não conseguiria ela olhou para a moça que aguardava, não agradeceu e foi embora.

A moça que aguardava minha mãe, olhou para mim “Nossa… Acho que te salvei de uma. A senhora já estava ficando brava” disse. Eu apenas respondi que por aqui era algo normal.

E realmente é.

Parando para pensar eu aprendi a não esperar “Bom dia” ou tampouco ouvir um “Obrigado”. Acostumei a ser maltratado por não saber o diâmetro do cabo do freio de um Fusca, mesmo dizendo que a loja é de refrigeração e eu não tenho um Fusca ou sou mecânico de automóveis.

Realmente a gente se acostuma com muita coisa…

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Fuja enquanto pode

“Para que ser funcionário? Seja seu próprio patrão e abra um comércio!”

Não. Fuja enquanto pode.

Para iniciar este blog, contando as histórias que acumulei em tanto tempo de comércio, quero lhes dar um conselho: Comércio é para quem gosta.

Uma vez minha esposa falou sobre o fato de sua vó ter se casado e conhecido seu cônjuge apenas quando estava no altar. A senhora disse algo como “O amor vem com o tempo”. Muito bonito isso, o amor vir com o tempo da relação, mas no comércio as coisas não são assim, se você não gosta, não adianta. É mais fácil um casamento do que administrar uma loja. É claro que se você aprender a gostar de ser um comerciante, as coisas ficam fáceis e a prosperidade virá. Mas tem que gostar!

Tem que amar perder finais de semana, tem que sentir um tesão a lhe invadir o corpo toda vez que for maltratado por um cliente, tem que desejar dias difíceis os quais não se vende nada, tem que gostar de lidar com faltas de funcionários… Comércio é sacrifício diário.

Tem aqueles que nasceram para o comércio, essa fina nata de pessoas não consegue ficar muito tempo atrás de um balcão e logo se veem administrando uma cadeia de lojas, fazendo com que o atendimento ao cliente vire apenas um hobby que goste de cultivar.

Desses eu tenho inveja.

No dia 18 de Setembro de 1991 meu pai resolveu ser seu próprio chefe. Alugou um imóvel de sua sogra e montou uma loja de refrigeração em Carapicuíba, enquanto ainda trabalhava em um banco à noite. Sentiu que o negócio engrenava e pediu demissão.

Meu pai era um cara que nasceu para o comércio. Era simpático e atraía lealdade das pessoas, seja clientes, fornecedores ou funcionários. Como empregado era péssimo, discutiu com todos os chefes que teve e mudava constantemente de departamento.

Começou com uma loja pequena e quando morreu já tinha três que em nada lembravam o tamanho da primeira.

Com sua morte me veio como herança uma delas. Na época eu estagiava como assessor de imprensa em uma das secretarias públicas de São Paulo, ganhava algo perto de R$ 350,00 por meio período, mas eu gostava do que fazia. Como minha mãe agora dependia de mim, larguei os estudos e o emprego para administrar o lugar. Cargo esse que mantenho até hoje, apesar de sonhar com uma venda e mudança de emprego, fazendo o caminho inverso, trabalhando de noite até conseguir me sustentar e vender a loja.

Esse diário de minhas memórias na loja pode ser meu último esforço de compreensão de meu ofício. Quero deixar aqui registrado todas as alegrias e tristezas que um comerciário passa, para que um dia eu possa reler e sorrir lembrando de um tempo que já é passado.

 

 

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