LAZULI

[00:44, 3/2/2018] ****: LAZULI

Tudo começou com aquele tiro de raspão, estávamos parados no ponto de ônibus e eu pressenti que algo ruim aconteceria, como sempre pressinto e sempre acontece. depois estávamos no ônibus e um vidro estourou, a bala passou entre o meu braço e o seu, lembra?

* * *

Também teve aquela vez que fomos ao bar e depois de muitas doses passamos a encher o saco de todos ali. Vieram uns dois caras de regata com uns tribais daqueles mal feitos e rostos que afrontam quem olha. Lembro de você puxando uma garrafa e acertando logo o maior deles, a garrafa quebrada, sangue, cerveja e cacos espalhados pelo chão. Levamos a pior e ficamos lado a lado no pronto socorro. Como você poderia esquecer, né?

Deu em cima da enfermeira, da médica e até da moça da limpeza. Depois de alta primeiro voltamos ao bar, com a maior cara lavado do universo, e depois que fomos à farmácia comprar os antibióticos.

Teve aquela do churrasco na casa do Boy, onde juramos que não íamos beber e cumprimos até o final. Galera em peso dizendo que nos preferia chumbados na cachaça que aí não daríamos tanto trabalho. Você lembra do Moacir? Tomou tanto tapa no pescoço que ainda deve ter marca de dedo.

Nos metemos em tanta confusão que o delegado do bairro até pensou em fazer uma capivara só nossa, para não perder tempo fazendo duas. O escrivão teve até tendinite e ficou afastado no Carnaval de 97.

Lembra do Otávio? Cachorro cheio de rabujo que nunca tinha visto. Depois de dois meses morando com a gente estava em melhor saúde que você. Pelo brilhante que acastanhava no sol da laje. E quando ensinamos ele a jogar areia nos outros da praia? Época de ouro.

E quando vimos o fantasma? Eu juro que era! Você aí todo racional com toda sorte de teorias sobre física e que a refração de sei lá-o-quê… Cara… Você é foda.

E agora você aí. Nesse caixão cor de lazúli. Todo frio e duro.

 

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Meta de Abril substituta – Amor de Perdição

Camilo-bio1Amor de Perdição de Camilo Castelo Branco, em substituição à minha meta de 2016

Primeiro vamos situar você, amigo leitor. Eu tenho uma meta de leitura que me dei em 2016, cujo link está aí em cima. Neste mês de Abril estava previsto o livro O Idiota, de Fiódor Dostoiévski. Não encontrei nos sebos da cidade e nem nas bibliotecas. Então soltei a publicação avisando que haveria alteração, no mesmo dia encontrei o livro em Ebook e passei a lê-lo.

Livro legal, leitura fluindo e eu de olho que a porcentagem lida, que fica logo abaixo no Kindle, demorava a mudar. Cheguei no segundo capítulo e chegou em dois porcento. Procurei na internet pelo número de páginas do livro físico e descobri que por pouco não chega a 700.

Eu consigo ler 700 páginas, mas não em tão pouco tempo tendo família, trabalho e faculdade.

Então no lugar farei a resenha de um livro clássico da literatura portuguesa, o mesmo que fiquei responsável por explicar para os alunos na primeira regência que fiz no estágio da faculdade. Hoje falaremos de Amor de Perdição, de Camilo Castelo Branco.

Amor de Perdição foi escrito pelo Camilo Castelo Branco em 1861, auge da era ultrarromântica e em um período em que o autor estava preso por adultério. Em exatos 15 dias Camilo refez a história de Romeu e Julieta com pinceladas portuguesas e absorvendo o que era o movimento romântico naquela época.

O primeiro fato que se pode falar sobre o romantismo é o amor exacerbado e a inclinação trágica típica dos autores ultrarromânticos. Uma história dessa sem uma amor impossível e sem mortes não é possível. E dessa forma é contada a história de Simão, filho de Domingos e Rita, que se apaixona por uma menina chamada Teresa, que assim como a clássica Julieta de Shakespeare, tem apenas 15 e pertence a uma família rival.

Teresa, que mora ao lado também é a típica heroína romântica. Devota toda a sua vitalidade para com Simão e é correspondida. Porém como tudo não são flores, os pais dos dois apaixonados descobrem e acabam por afastá-los. À Teresa fica a opção de casar-se com um primo, chamado Baltasar, ou o convento. Decide pela última e continua a se corresponder com Simão.

Porém a narrativa não vive só do triângulo amoroso entre Simão, Teresa e o Baltasar. Outro triângulo se forma com o aparecimento de Mariana, apaixona-se a tal ponto por Simão que prefere ajudá-lo a ficar com Teresa, pois assim ele ficaria feliz.

Ao todo no livro morrem seis pessoas. O mesmo número de mortes em Romeu e Julieta, sendo a última morte a mais impactante. A grande diferença é o público ao qual é destinado, enquanto o Bardo tinha uma certa aversão a tudo o que era povo, Camilo escreveu para a emergente classe burguesa de Portugal. Camilo narra um folhetim de amor levado às últimas consequências, tanto que dois personagens da trama morrem por terem amado demais.

Um livro bem recomendado de um período muito importante da literatura mundial e escrito pelo primeiro autor português a conseguir viver de seus escritos.

 

400 anos da morte Shakespeare

William-Shakespeare.jpgoje é dia dO Bardo. Há 452 anos nasceu William Shakespeare e nos deixou a 400 anos atrás. Escreveu 38 peças, 154 sonetos e dois poemas narrativos, sua obra é alvo de estudos até hoje graças a suas metáforas e multi-sentidos que transformam o entendimento do texto dependendo do conhecimento do leitor.
Suas mais famosas peças: Hamlet, Rei Lear, Romeu e Julieta, Otelo, Sonhos de uma Noite de Verão, Macabeth, o Mercador de Veneza e A Megera Domada, são fundamentos da cultura pop tão enraizados que mal percebemos.
Hamlet inspirou a história do Rei Leão, assim como A Megera Domada é a base do filme 10 Coisas que eu Odeio em Você. Frases como “Ser ou não ser, eis a questão” e “Há mais coisas no céu e na terra, Horácio, do que sonha a tua filosofia.” (O “vã”, geralmente encontrado em traduções para português não está no texto original), “Um cavalo, meu reino por um cavalo”, “Nossos corpos são como jardim, e nossas vontades os jardineiros” são até hoje citadas à exaustão.
Criador de 1700 palavras do idioma inglês, inspiração para Schopenhauer, Freud, Goethe e Machado de Assis, torna difícil imaginar o mundo sem a obra de Shakespeare, mas podemos dar asas à imaginação e dizer que provavelmente seria mais chato e menos criativo.

Deu ruim para a Meta de Leitura

Neste mês estava programado a leitura de O Idiota e Fiódor Dostoiévski, porém não consegui achar o livro em sebos ou bibliotecas perto de mim. Logo não poderei lê-lo e fazer a resenha.

Provavelmente adiantarei algum livro ou trocarei por outro clássico, provavelmente Hamlet, que já li duas vezes neste ano.

Meta de Março – Édipo Rei

Édipo Rei de Sófocles, lido conforme minhas metas de 2016.

Édipo Rei é um clássico da tragédia grega, peça que acabou por virar referência na psicanálise. Conta a história de Édipo, filho de Laio com Jocasta, criada pelo dramaturgo grego Sófocles por volta de 427 aec.

édipo rei
Édipo Rei,de Sófocles

Advertido pelo oráculo que seu filho o mataria e casaria com sua esposa Jocasta, Laio acaba por desacreditar tal profecia, tem um filho e abandona a criança com os tornozelos furados para encontrar sua própria morte. Qualquer conhecedor de tragédias gregas sabe que se há algo que não se pode desafiar é o destino dados por oráculos, a criança sobrevive ao ser encontrada por pastores e foi levada a Polibo, rei de Corinto.

Já adulto Édipo, que em grego pode ser traduzido no grego como “pés inchados”, consulta o oráculo e recebe a notícia de seu destino, já ditado para Laio, atordoado ele segue para Tebas onde confirmará tudo aquilo que foi descrito.

Sem saber que Laio era seu pai, o mata na estrada depois de uma desavença, derrota a Esfinge, atormentadora do povo Tebano que em agradecimento o torna rei e acaba por desposar Jocasta, sua mãe.

Mas uma boa tragédia grega não pararia com uma morte apenas, descobrindo o que acontecera Édipo acaba por se cegar e Jocasta se enforca.

No século XIX, Sigmund Freud, pai da psicanálise, utiliza-se da peça para criar o Complexo de Édipo, que trata do conjunto de desejos amorosos e hostis da criança em relação a seus pais, com o desejo pelo sexo oposto e a vontade de assassinar, de forma metafórica ou não, seu progenitor do mesmo sexo.

Édipo Rei é uma tragédia sobre relações familiares e sobre auto investigação. Traz o questionamento básico da filosofia grega da compreensão de seu ser. É tão antropocêntrica que, apesar do destino traçado nos três oráculos, não aparecem os deuses. O destino está traçado, porém cabe ao homem entender os seus desígnios, Édipo se faz perguntas “Quem matou Laio?”  que virará no decorrer da peça “Serei eu o assassino de meu pai?” enfim chega ao cerne de todos os questionamentos: Quem sou eu?

E essa é a pergunta que nos resta responder pelo resto de nossas vidas.

 

Meta de Fevereiro – Prometeu Acorrentado

Prometeu Acorrentado, de Ésquilo, lido conforme minhas metas de 2016.

Prometeu Acorrentado é uma tragédia grega que faz parte de uma trilogia composta por Prometeu acorrentado, Prometeu libertado e Prometeu portador do fogo, porém apenas essa sobreviveu aos dias atuais. Até sua autoria é contestada por parte dos estudiosos que a atribuem a outro autor anônimo.

Prometeu é um dos titãs da mitologia grega e usurpador do fogo divino, metáfora para os meios de subsistência da humanidade. O fruto do seu roubo foi dado aos homens e Prometeu acaba acorrentado no monte Cáucaso por Héfeso, a mando de Zeus, e lá ficaria por 30 mil anos queimando sob o sol e tendo seu fígado bicado por uma águia.

Prometeu acorrentado
Prometeu acorrentado

Prometeu Acorrentado é uma ode contra a tirania. Prometeu acorrentado às rochas recebe consolos e conselhos de seus visitantes para que se arrependa de seu ato, talvez Zeus o tirasse dali, porém mantém sua dignidade e reluta contra sua própria sorte. Engana-se quem acha que a revolta do oprimido contra o opressor é algo inventado por Marx e luta de classes nada mais é que um desejo interno de todo socialista. Os gregos, pais do pensamento moderno ocidental, já discorriam sobre tais intentos desde outrora.

“Em uma só palavra, odeio todos os deuses”, brada Prometeu ainda dizendo que sabe de como será o fim de Zeus e nada fará ou falará para que não ocorra e esse acaba por ser seu destino final. Talvez Prometeu estivesse certo quanto quanto ao destino de Zeus e toda a mitologia grega, agora substituída pela cristã e sua moral consequentemente. Substituímos um salvador da humanidade que até o fim lutou contra a autarquia divina por um filho de Deus, que na tradição cristã é um só, sofredor e de caráter bovino.

 

 

 

Meta de Janeiro – Antígona

Antígona de Sófocles, lido conforme minhas metas de 2016.

coluna

Ler uma tragédia grega é contemplar o passado e a formação do pensamento ocidental em seu mais puro estado. Antígona é uma peça teatral curta, porém de profundo significado. Continuação da também tragédia Édipo Rei, trata da história dos filhos de Édipo: Etéocles, Polinice, Antígona e Ismênia.

Tudo começa com um acordo entre Etéocles e Polinice de revesar o trono de Tebas trocando a posição a cada ano, porém Etéocles, o primeiro a comandar, desiste da troca e Polinice se alinha à cidade vizinha com a finalidade de derrotar seu irmão.

Porém na guerra os dois deram-se o golpe mortal, tombando ao mesmo tempo. Quem assume é seu tio, Creonte irmão de Jocasta, que por sua vez é esposa de Édipo.

Creonte decide que fossem dadas as honrarias fúnebres a Etéocles, que lutou por Tebas, enquanto seu irmão Polinice deveria ficar onde caiu e ser destroçado por animais carniceiros. Além de que nenhum cidadão tebano poderia dar tal sepultamento.

Antígona, triste pelo tratamento dado ao corpo de Polinice, resolve desafiar Creonte e ela mesma o enterra. O soberano sabendo de tal desaforo a prende em um túmulo para que morra de fome, o que dá início ao conjunto de tragédias que se abatem na família.

Antígona enterra seu irmão
Antígona enterra seu irmão Polinice

Nesse clássico há o embate entre a consciência individual, representada por Creonte e seu pensamento déspota de deixar um corpo apodrecer por traição do morto por convicções, notavelmente humanas, mas não no sentido clássico de humanismo, mas sim do que nos é de ruim. Do outro lado Antígona é a consciência coletiva que estabelece o “certo” e o “imoral”, que é ao mesmo tempo o lado religioso (nada mais claro e atual do que a religião definindo morais da sociedade) e sua certeza de que um corpo deve receber os ritos funerários adequados, não importando seus crimes.

Creonte e Antígonas são criminosos cada um a sua maneira. Enquanto Creonte desobedece as tradições, Antígona as leis de seu país. E aos dois, como em toda tragédia grega, há punição na forma de duas mortes pelas quais acabam sendo responsáveis, cada um a sua maneira.

O que nos ensina o perigo dos extremos, de levar às duras penas as leis sociais e pessoais que nos cercam. A dicotomia entre a lei dos deuses e a lei dos homens, realçando os conceitos de direitos subjetivos, dá nascimento há um clássico de leitura fácil e imprescindível para entender o pensamento ocidental.